O Estranho Que Nós Amamos (Sofia Coppola, 2017)

Não é fácil saber o que sentir diante de um filme como “O Estranho Que Nós Amamos” (2017). Não porque ele seja pesado, incisivo ou ambicioso de alguma forma… Mas justamente o contrário. A versão de Sofia Coppola para o romance de Thomas Cullinan é uma contemplação em tons pastéis do encontro trágico entre sete mulheres e um homem de origens opostas no contexto da Guerra Civil Americana. E, apesar de faltar ousadia, há algo de subversivo na opção pela delicadeza.

O livro já fora adaptado nos anos 70, num filme estrelado por Clint Eastwood. Na época, a história se traduzia mais ou menos como uma fantasia masculina transformada em pesadelo – um soldado em fuga encontra redenção numa casa cheia de beldades, mas o ciúme doentio entre as mulheres acaba fazendo com que o pobre herói seja castigado.

A história, aqui, se manteve a mesma, mas a abordagem não poderia ser mais diferente. Em primeiro lugar, Coppola coloca o filme sob a perspectiva feminina e o forasteiro, como um objeto de curiosidade, fetiche e medo. Em segundo, ela rejeita o melodrama e afasta com segurança o estereótipo da histeria feminina, colocando o descontrole maior no personagem de Colin Farrell – que cumpre o papel com maestria e dá ao filme uma ambiguidade preciosa.

Farrell vive um soldado do Norte, inimigo por princípio dessas mulheres, que vivem isoladas numa escola no sul. Ele é encontrado ferido por uma das meninas mais novas e levado para dentro, onde lhe oferecem cuidados e comida, mas onde também cogitam entregá-lo às tropas sulistas. Nesse ambiente, a hipocrisia da “hospitalidade cristã” e a empatia com o homem fragilizado colidem com o instinto de sobrevivência de quem já está mais do que familiarizada com relatos de estupros e assassinatos em tempos de guerra.

Nicole Kidman e Kirsten Dunst assumem a dianteira, responsáveis pela escola e pelo prisioneiro, e lidam de formas contraditórias com sua presença. Elle Fanning traz o caos, divertindo-se com seus hormônios e consciente de sua beleza, enquanto Oona Laurence representa a inocência e Angourie Rice, o egoísmo de quem rejeita o estranho. Addison Riecke e Emma Howard, que completam o time, apenas observam e aprendem, muito bem.

O filme levantou polêmicas não apenas por sua visão feminista (suas personagens não são heroínas, mas são complexas), mas também porque Coppola deixou de fora uma personagem negra, que existia na obra original. Sua justificativa é que ela não queria perpetuar o preconceito trazendo uma escrava para a tela, mas o efeito acabou sendo o oposto – o de invisibilidade para a questão racial. O filme, de fato, apenas disfarça o tema sugerindo que os escravos abandonaram a escola ou foram liberados diante das circunstâncias.

Ainda assim, “O Estranho Que Nós Amamos” rendeu a Coppola o prêmio de Melhor Direção em Cannes e fez com que ela se tornasse a segunda mulher na História a ganhar na categoria (depois de Yuliya Solntseva, com “A Epopeia dos Anos de Fogo”). Este não é nem de longe seu trabalho mais poderoso, mas a qualidade da direção é indiscutível e as atuações de Kidman e Farrell fazem valer o ingresso. O filme chega aos cinemas no dia 10 de agosto.

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