Planeta dos Macacos – A Guerra (Matt Reeves, 2017)

Se alguém me dissesse, dez anos atrás, que “Planeta dos Macacos” se tornaria um nome a ser levado a sério – um título que não remeteria nem de longe a fantasias engraçadas, sociedades malucas e mundos distantes (revelados, ao fim, serem justamente o nosso) – eu daria uma risada bem alta. Não que não visse o valor: o livro é ótimo e o clássico de 68 sempre será um clássico. Mas “realismo” e “seriedade” não eram bem as palavras que norteavam a obra até então…

Pois na última terça-feira fui assistir ao terceiro (e, filosoficamente, último) filme da nova franquia “Planeta dos Macacos”, iniciada em 2011. A proposta, desde o início, fora ousada: ao invés de mostrar o encontro do humano com um mundo já povoado por macacos, o primeiro filme decidira contar a história da geração desses animais superinteligentes e, a partir daí, narrar a extinção da raça humana em paralelo com a ascensão de uma nova espécie dominante, trabalhando sempre o rancor nascido da consciência de que nós os criamos.

Diferente dos outros filmes inspirados na mesma obra, a trilogia seguiu o ponto de vista de um macaco, e não um humano, e assim forçou o público a se colocar no lugar do outro. Serão eles culpados pela decadência da humanidade? Ou apenas sobreviviam à sua maneira enquanto nós provocávamos nosso próprio apocalipse? Talvez a existência deles nos lembre de nosso fracasso, e por isso os odiamos, nesse mundo fictício. Está sério o suficiente para vocês?

Pois saltemos para “Planeta dos Macacos: A Guerra”, o filme em si. Depois de ter sido educado por um humano, visto de perto a devastação causada pelo mesmo vírus que deu inteligência à sua espécie, sentido o medo, o ódio e a compaixão nos olhos de diferentes humanos e testemunhado a revolta, também, de alguns macacos, Caesar (Andy Serkis) agora se esconde num acampamento na floresta enquanto a guerra atinge seu auge. Ele não a provocou, mas eventualmente terá que lidar com ela.

O filme precisa dar a Caesar um motivo pessoal para abraçar a violência e, quando a tragédia acontece, não posso dizer que é uma surpresa. O que contraria expectativas é o que vem depois: imagino que vocês estejam esperando uma batalha grandiosa, especialmente considerando o título e o final cheio de promessas do longa anterior… Mas não. Nada disso.

O que se apresenta é um clássico filme de fuga, com macacos aprisionados no quartel-general de um comandante sádico, sofrendo passivamente até, finalmente, alguém tramar um plano arriscado para saírem de lá. Isso, aliado a pequenos e excêntricos momentos de humor, faz de “A Guerra” o filme mais convencional da franquia – e, por essa, ninguém esperava.

Em meio a esse enorme anticlímax, felizmente, algo bem mais interessante vai se construindo: a relação paradoxal de ódio cego e compreensão racional entre os líderes Caesar e o Coronel, interpretado com gosto por Woody Harrelson. É curioso que, talvez pelo peso do tempo, este seja o filme em que Caesar é menos protagonista, no sentido de que não é ele que coloca a história em movimento e não é ele quem encontra as soluções. Como líder, ele ainda dá o exemplo e motiva seu grupo, mas é significativo ver como seu povo já está andando com as próprias pernas, e seu arco agora se torna mais pessoal do que político.

Enquanto Caesar encara seus demônios, quem conduz a aventura são os macacos Maurice (Karin Konoval), Luca (Michael Adamthwaite), Rocket (Terry Notary) e o novato Bad Ape – um adorável maluquinho vivido pelo comediante Steve Zahn. O núcleo ainda incorpora uma criança humana (Amiah Miller), que não fala e ganha o nome de Nova, o que pode servir tanto como uma homenagem à obra original (Nova era a mulher humana de comportamento primitivo que o astronauta encontra no planeta dos macacos) quanto como um gancho para uma futura sequência.

Um pequeno detalhe que me chamou a atenção neste terceiro filme, e que particularmente me parece um erro grave, é o peso bíblico dado a algumas cenas – é algo pontual, mas que afeta o significado da obra inteira. Cuidado, pois aqui podem entrar alguns spoilers: o que acontece é que, o invés de concluir a jornada dos macacos como uma tomada de poder (uma perspectiva política), ou como uma evolução de espécie inserida num ciclo da natureza (uma perspectiva biológica), o diretor Matt Reeves escolhe uma abordagem religiosa, comparando visualmente a trajetória de Caesar à de um líder que conduz seu povo à terra prometida.

Nem é preciso dizer que essa ideia vai contra o que vinha sendo construído nos dois filmes anteriores, e enfraquece bastante o poder questionador da franquia. Ora, se Caesar é como um líder religioso, então sua jornada é metafórica e eu não preciso mais enxergar naquele contexto qualquer semelhança com a minha realidade. Entendem o perigo? É claro que o cenário todo sempre foi uma metáfora, mas há algo nas histórias religiosas que “acalma” o espectador e tem um efeito oposto ao de histórias de guerra, por exemplo, que é o efeito de “provocar”, de “chocar”, de “causar um mal estar transformador”.

Pois esse mal estar não vem e, ao final das duas horas e vinte, somos deixados com a sensação de que tudo não passou de um inofensivo sonho ruim, e que tudo, como sempre, ficará bem.

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