Ócio, velho desconhecido

Quando era mais nova, ouvia falar de um tal de “ócio criativo”. O nome era engraçado, parecia desculpa para não se fazer nada… Mas era coisa de artistas, de boêmios, devia ter o seu valor. Fosse como fosse, a verdade é que eu nunca o tinha praticado. Pelo menos, não conscientemente.

O clique me veio num dia desses, quando a estafa mental alcançava aquele limite típico de quem assumiu mais projetos do que deveria e acha que vai resolver todos eles na mesma segunda-feira. Aquele de quem sabe que os domingos não são feitos para descansar, mas sim para antecipar e organizar toda a vida da semana seguinte, e dormir calculando o cronograma ideal.

Mas bastou uma memória passageira e eu finalmente entendi: todos os meus momentos mais criativos na vida não aconteceram enquanto eu riscava metas do dia na agenda de papel. Eles vieram nas férias, entre um trabalho e outro, numa viagem, ou quando eu simplesmente tinha tempo livre. Muito. tempo. livre.

O ócio, esse mesmo, já era um velho conhecido e eu nem sabia! Aparecia quando não me sentia culpada por estar deixando de lado uma obrigação qualquer e podia deixar as palavras se amarrarem ao papel ou o olhar se perder nas nuvens sem a pressão do relógio no celular. Quando o “fazer nada” me impelia naturalmente ao grafite mais próximo e eu simplesmente obedecia, a cabeça muito longe dali.

Acho que já comecei a entender que precisava de um pouco de ócio quando prometi a mim mesma que aproveitaria uma viagem (marcada láaa para o fim do ano) para fazer uma espécie de “retiro literário”… Me via numa cabana solitária como os escritores dos filmes – sabem? É claro que sabem. Escrevendo páginas e páginas sem fim, produtivos e ociosos paradoxalmente ao mesmo tempo.

Mas a verdade é que nunca acreditei realmente nesse sonho. Escrever sem me preocupar em publicar no mesmo dia? Ou nem escrever, mas apenas observar e absorver? Há! Nem sei mais o que é isso… Um luxo restrito aos desempregados e a George R. R. Martin. Na vida real, o relógio te encara com a foice na mão e as obrigações, enfileiram-se raivosas (mesmo que, entre elas, estejam também textos, mas sobrecarregados como todo o resto).

Pois, luxo ou não luxo, o fato é que a criatividade e o ócio talvez andem, sim, juntos, e precisem encontrar um misterioso e delicado equilíbrio. Missão quase impossível, eu sei, neste mundo conectado e, especialmente, para uma workaholic como eu e como todos vocês. Mas, se é preciso criar… Então é preciso tentar. E correr atrás para encaixar algumas metas a menos e um pouquinho de ócio a mais.

Que comece a boemia.

 

Publicado originalmente no site Textão Querido de Cada Dia.

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