Esta é a sua morte – o show (Giancarlo Esposito, 2017)

Existem filmes que priorizam a técnica. Outros, que dão espaço ao ator. Há aqueles que só têm olhos para o roteiro e suas reviravoltas e outros, ainda, que se importam mesmo é com a mensagem. Se importam tanto, aliás, que nem percebem que estão escorregando em todo o resto… Prefiro esse último a todos os outros.

Esta é a sua morte – o show” se encaixa nessa categoria: é um filme que tem algo a dizer, mas não sabe exatamente como dizê-lo. A proposta é polêmica: depois de um crime ter sido cometido ao vivo durante um reality show, a diretora de programação Ilana Katz (Famke Janssen) decide colocar na mesa uma ideia chocante: e se o próximo reality fosse sobre suicídio? Não sobre ajudar pessoas a desistirem da ideia, ou acompanhar seu tratamento e as histórias de superação… Muito clichê. Mas e se fosse sobre ajudá-las a tirarem suas vidas, ao vivo, num grande espetáculo midiático? A questão é: quem, em sã consciência, assistiria a isso?

A resposta, pelo menos no universo sensacionalista de “Esta é a Sua Morte – O Show”, é praticamente todo mundo. E não imagino desdobramento tão diferente na realidade: o programa logo alcança o primeiro lugar na audiência, dividindo o povo entre fãs sádicos, manifestantes revoltados e voyeurs que julgam o programa “uma baixaria”, mas assistem de canto de olho.

E é aqui que o filme bifurca entre “uma ideia provocadora” e “um roteiro mal resolvido”. De um lado, está o contexto da televisão, da vida real transformada em espetáculo. A escolha da mídia, em si, parece um pouco datada, mas a relação que ela estabelece entre o espectador e o “personagem” é a mesma que faz a internet em tempos de linchamentos virtuais e fake news: quem se coloca diante da câmera (ou viraliza nas redes sociais) torna-se imediatamente virtual e, portanto, sua história tem o impacto da ficção. Reagimos emocionalmente, porém com distanciamento, como a um filme. Se o participante do programa morre no palco, aquilo é sentido como entretenimento, como uma catarse coletiva, mas jamais será o trauma que seria se ele morresse na rua, à luz do dia.

A ideia pode parecer muito distante, mas a verdade é que ela só reforça um tema que tem estado em alta desde o ano passado. Se “13 Reasons Why” trabalhara causas externas e gatilhos para o suicídio e “Como Eu Era Antes de Você” jogara o foco sobre as pessoas ao redor (tocando, inclusive, na polêmica do suicídio assistido, que é basicamente o tema aqui), também tivemos o mais discreto “Christine”, que chegou ao Brasil direto em streaming e trouxe à tona o papel da TV e do jornalismo no questionamento do que é empatia e responsabilidade social. Agora, “Esta é a Sua Morte” aposta no extremo para chamar a atenção para a banalização do assunto – de um jeito que nos parece tão absurdo e, ao mesmo tempo, tão familiar, que nem sabemos como reagir.

Isso tudo poderia fazer deste lançamento uma obra cheia de impacto, se não fosse pelo outro lado: o problema da construção dos personagens. O protagonista, um apresentador chamado Adam Rogers (Josh Duhamel) que testemunhou o crime inicial e foi perturbado por ele, é o caso mais grave. Quando Adam é convidado a apresentar o novo show, ele o rejeita com sangue nos olhos – só para, no minuto seguinte, ter uma epifania e abraçar o projeto com unhas e dentes.

Fica claro que havia uma intenção ali – Adam imagina alguma coisa que faz aquele programa ter sentido para ele – porém essa imagem escapa entre uma cena e outra e somos deixados com a pergunta sem resposta: por que ele mudou de ideia? O que ele viu ali?

Adam não é o único incoerente e, entre tantas decisões mal explicadas, quem acaba amarrando as pontas é o mais clichê dos personagens: o faz-tudo chefe-de-família vivido pelo próprio diretor, Giancarlo Esposito. Este é o segundo longa de Esposito na direção e ele, que já atuou em mais de 160 projetos incluindo a série “Breaking Bad” e a franquia “Maze Runner”, deixa claro que sua especialidade está na frente das câmeras e não do outro lado – e que ele sabe disso.

Seu personagem funciona como um antagonista para Adam, representando o lado de quem vê na televisão não um agente de mudança, mas um “último bico”, uma solução indesejada para os seus problemas, um patrão abusivo a quem ele deve mais do que pode pagar. Ironicamente, o apresentador vê a si mesmo como um benfeitor, o que faz pensar em todas as relações de poder que construímos por aí.

“Esta é a sua morte” tem ainda, no elenco, Caitlin Fitzgerald e Sarah Wayne Callies, e conta com roteiro de Noah Pink (da série “Genius”) e Kenny Yakkel (de outros projetos sangrentos como “Reality da Morte” e “Dead Man Rising”). O filme chega aos cinemas no dia 21 de setembro, se não para chocar, então, pelo menos, para chacoalhar um pouco algumas ideias empoeiradas. Vale a intenção.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s