Kingsman: O Círculo Dourado (Matthew Vaughn, 2017)

Antes de qualquer coisa, informo que gostei bastante do primeiro “Kingsman”. Assisti depois de todo mundo e, munida de um hype elevado (porque cada amigo com quem eu conversava dizia que eu pre-ci-sa-va ver aquele filme), saí satisfeita: se não era original, pelo menos era autêntico, ousado, divertido. E a cena da capela tinha um quê tarantinesco inesperado que me tirou o fôlego.

Foi com toda a boa-vontade, então, que fui ao cinema numa quinta-feira conferir a sequência: “Kingsman: O Círculo Dourado”. Já tinha reduzido um pouco as expectativas depois de descobrir que o personagem de Colin Firth estava de volta (o que não é um spoiler, afinal, está em todos os trailers), mas imaginava que esse pequeno absurdo seria meu maior problema… Quem me dera.

O novo “Kingsman” tem ótimos momentos e o jovem Taron Edgerton está melhor do que nunca, mas falta o que costuma faltar a todos os “segundos filmes” em franquias de ação (exclua aí, por favor, o inteligente “John Wick: Um Novo Dia Para Matar”): falta um motivo para existir. Sem uma história para contar, um protagonista para desenvolver ou qualquer coisa nova para trazer à mesa, “O Círculo Dourado” satura o espectador com cenas malucas de ação e infla a tela com dezenas de novos personagens, como se tentasse ocupar cada segundo com um acessório mais vistoso. (Faço uma exceção para a vilã vivida por Julianne Moore – porque Moore sempre vale a pena.)

O problema, porém, é que essa falta toda mal me incomodou. Não tanto quanto o que sobrou, e sobrou algo que não poderia jamais ter sobrado numa franquia que tem como tema central a finesse e a precisão de uma agência de assassinos “gentlemen”: sobrou mau gosto.

Quando digo “mau gosto”, não quero dizer que o figurino é deselegante, que as piadas são ruins – o humor é bom, aliás –, que o inimigo é caricato ou os atores, charlatões. Quero dizer que existe uma sequência inteira construída sobre um objeto de espionagem que só funciona se inserido nas partes íntimas de uma mulher, e que dois homens competem para aplicá-lo.

Quero dizer que a única agente feminina é excluída da trama nos primeiros minutos e que a segunda, uma Hale Berry especialista em tudo (de computadores a procedimentos médicos), tem sua única chance de participar da ação cortada pela raiz quando um colega, a quem ela confessara seu desejo de ir a campo, passa por cima dela e se joga na missão, depois de dizer que “nunca tinha se interessado” por isso. E, quando ela finalmente ganha sua “oportunidade”, é porque outros dois homens que jamais haviam trabalhado naquela agência a recusaram.

Esse é o mau gosto de um “Kingsman” que ignorou as críticas de seu primeiro filme – entre elas, a piada com uma princesa sobre “dar um prêmio” ao seu salvador. Piada repetida, aliás, já que a princesa virou namorada do herói. O que será que passou pela cabeça desses roteiristas (entre eles, uma mulher)? Que “o feminismo está na moda” e que, portanto, colocar uma vilã mulher (literalmente isolada, diga-se de passagem) bastava para cumprir os requisitos? Que as lutas eram tão divertidas que ninguém ia se importar? Que “era só uma brincadeira”?

Seja qual for a resposta, o fato é que “Kingsman: O Círculo Dourado” não precisava disso. O que ele precisava era de uma história menos batida do que “a agência inglesa foi destruída, então conheçam a americana”, de uma mensagem menos moralista do que “as drogas são ruins para você, não deixem que as legalizem” e, principalmente, de foco. Para aproveitar alguns bons personagens que ele tinha em mãos e fazer um filme que pudesse levar o mesmo nome de uma das melhores surpresas de 2014.

“Kingsman: O Círculo Dourado” chega aos cinemas no dia 28 de setembro.

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