A Culpa é da Yoko

A vida inteira, acreditei que Yoko Ono tinha destruído os Beatles.

Achei que, como uma bruxa maliciosa, aquela mulher havia sussurrado palavras no ouvido de um amante encantado e acabado, sozinha, com a trajetória perfeita da maior banda do mundo. Culpei Yoko como se ela fosse um Beatle. Como se fosse responsável pela harmonia entre quatro homens adultos com personalidades, aspirações e curiosidades artísticas completamente diferentes. Como se Yoko quisesse marcar a própria carreira pela sombra de uma banda de rock… Como se ela, jovem, apaixonada e cheia de sonhos, quisesse ser para sempre viúva. Culpei Yoko mais do que culpei o assassino de John Lennon.

É horrível, né? Eu sei. Tinha até esquecido dessa história, quando, numa conversa banal, ouvi um comentário que já tinha ouvido um milhão de vezes, e achado absolutamente natural nas novecentas e noventa e nove mil anteriores: “É aquela mulher. Certeza que ela fez a cabeça dele”. E, pela primeira vez, ouvi de verdade: “aquela mulher” não era Yoko, mas ela era Yoko e Yoko era todas nós.

Repassei mentalmente outras tantas frases idênticas que, de um jeito ou de outro, eu tinha ouvido repetidamente nos últimos anos: “fulana fez ele trair a namorada!”, “fulana não deixa ele ver a família”, “fulana afastou ele dos amigos”, “fulana faz dele gato e sapato”, “fulana é mandona, cuidado com ela”.

Fulana é mandona, cuidado com ela.

Não sei vocês, mas nunca mandei ninguém fazer nada, exceto, talvez, fazer silêncio ou não me incomodar. Não tenho perfil de liderança e detesto ter que escolher o que as outras pessoas vão fazer. Apesar disso, já fui chamada de “mandona”, só porque meu parceiro quis fazer uma gentileza e tentar me agradar. Só porque ele quis saber o que eu pensava antes de tomar uma decisão. Só porque ele fez alguma coisa de um jeito diferente, mesmo que eu nem estivesse ali. Imagine se eu quisesse, de fato, mandar nele?

Aí, então, a culpa ainda não seria minha.

Porque a culpa nunca foi da Yoko. Porque quem diz que “por trás de todo grande homem, há uma grande mulher” não quer encarar o fato de que, por trás de todo homem, na verdade há uma formação, um caráter, uma consciência e a plena capacidade de responder por suas próprias ações.

E, ao seu lado, pode ou não haver uma mulher.

 

Texto publicado originalmente no site Textão Querido de Cada Dia.

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