Crítica, modo de usar.

Talvez eu não seja a melhor pessoa para falar sobre isso neste momento… Não escrevo uma crítica há mais tempo do que posso admitir e tenho inventado desculpas para continuar nesse hiato. Mas talvez esse seja justamente o motivo pelo qual preciso falar sobre isso. Sobre a crítica cultural, em geral… Sobre a crítica de cinema, em particular. E sobre críticos e leitores que ainda não entenderam para que serve essa palavra tão cheia de glamour e rancor.

Comecemos pelo básico, então: espero não precisar lembrar que “crítica” não é sinônimo de “reclamação”, como nossa querida gramática do dia-a-dia insiste em praticar. Mas “crítica” não é, tampouco, “opinião”, e é aí que muita gente estreita os olhos, desequilibra as sobrancelhas e pigarreia, ensaiando um protesto, mas aguardando explicação.

Vejam bem: eu sei que vocês adoram perguntar a mim e a todos os meus colegas se nós “gostamos” de tal filme, se “vocês deveriam” ver tal outro, ou, para os mais práticos, “o que tem de bom em cartaz”. Eu sei que vocês perguntam, e eu sei que nós respondemos, ou fazemos o nosso melhor para responder. Sei, também, que a grande maioria dos veículos usa essa imagem do crítico-curador para criar listas para todas as ocasiões, colocar estrelinhas em todas as estreias ou eleger os “melhores do ano”, os “melhores do mês” ou os “melhores de todos os tempos”. Ou os piores, que sempre dão mais audiência.

Tudo isso é muito divertido, mas sinto informar: não é crítica. Ou, pelo menos, não deveria ser. Escrever uma crítica (ou falar, se essa é a sua linguagem) não tem nada a ver com “gostar” ou “não gostar”, nem com estampar um selo de aprovação, uma estatueta dourada ou um tomate podre. Fazer uma crítica, de verdade, é refletir e provocar. Provocar o leitor, provocar o artista, provocar a si mesmo e ao mercado.

Criticar é tentar compreender o quê, como, por quê, por quem, para quem, onde, quando, e então colocar tudo isso em cheque. É encontrar o contexto que abriga a obra, reconhecer seus diversos criadores, buscar sentidos e causas, descobrir diálogos e padrões, confrontar ficção com realidade, confrontá-la consigo mesma e, enfim, ajudar o espectador a enxergar, além da superfície, o que está sendo realmente apresentado naquela sala escura com Dolby Digital, 48 FPS e tela 4K.

Nem sempre, é claro, conseguimos fazer tudo isso. Na maioria das vezes, assistimos ao filme uma única vez e detalhes passam despercebidos, sentimentos ofuscam as impressões e muita coisa se perde no caminho entre o cinema e nossos computadores. Mas esse fator humano e imprevisível é o que torna a crítica cultural tão bonita: estamos, afinal, falando de arte, e falando de pessoas com emoções e expectativas, e não serviria de nada entregar a elas uma monografia impecável, se não pudessem encontrar nas entrelinhas um ser humano de carne-e-osso.

E esse ser humano, crítico e cronicamente insatisfeito, não quer dizer ao leitor se ele deve ou não gostar daquele filme. Ele quer guiar seu olhar, apontando uma referência aqui, um truque ali, uma incoerência acolá, e assim acrescentar algo relevante à sua experiência como espectador. Seu sonho é despertar o interesse do outro por obras que ele jamais notaria, fazê-lo questionar o que parecia óbvio ou sem sentido e sugerir interpretações que ele ainda não havia considerado.

Se conseguirmos algo assim, então, aí sim, teremos cumprido nosso papel como críticos. E ninguém nem precisará saber se gostamos do filme ou não.

 

Texto publicado originalmente no site Textão Querido de Cada Dia.

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