Sobre tolerâncias

Na última quarta-feira, o Rodrigo Baldin escreveu sobre nossos tempos de intolerância aqui no Textão. Falou sobre como escolhemos não enxergar o outro ou dividimos a humanidade em dois grupos simples, planos e bem definidos, ignorando os avisos da ficção científica desde sempre.

E ele usou essa palavra: “tolerância”. Disse que é preciso “construir a tolerância” se quisermos fugir da barbárie. E essas dez letrinhas ficaram na minha cabeça, arranhando, junto com as imagens fantásticas de HG Wells… Até que descobri que não confio nelas. São traiçoeiras. Tampouco prefiro o seu oposto, mas veja bem: quem em sã consciência se satisfaz em ser “tolerado”?

Eu, por exemplo, dispenso a gentileza. Adoraria ser ouvida, talvez compreendida, melhor ainda se fosse deixada em paz. Mas tolerada? Sei não. Tolera-se a dor nos pés depois de uma noite de balada. Tolera-se a espinha depois do chocolate. Tolera-se um episódio ruim de Game of Thrones, um “Dany” seguido de uma piscadela, tolera-se a chuva e o trânsito na sexta-feira à noite, mas, com pessoas, é preciso mais do que isso. Tolerar é sugerir que o outro é um problema, um erro, um incômodo a ser suportado, não um vizinho a ser conhecido… Mas conhecer dá trabalho demais, então apenas “toleramos”.

Porque, no fundo, é só isso mesmo: somos todos vizinhos, compartilhando um planeta como uma sala de aula ou um escritório, ou uma churrasqueira na área comum do prédio. E você pode levar meses para se sentir à vontade com uma pessoa que vê toda semana. Ou cultivar uma impressão negativa de alguém até que, um dia, uma coincidência e um café façam com que vocês descubram que têm muito em comum. Imagine se tivessem se agredido logo no primeiro “bom dia”? Imagine se tivessem se contentado em “se tolerar”?

É difícil, eu sei, mas somos todos adultos – ou, pelo menos alguns de nós – e não custa tentar. Ao invés de tolerar, por que não tentamos, na próxima vez, simplesmente conviver? Fale, ouça, seja e deixe ser, pergunte e preste atenção às respostas, brigue e faça as pazes, ame ou odeie, discorde do que quiser. Só não me venha com tolerâncias porque, uma hora, a paciência acaba e voltaremos à barbárie.

 

Texto publicado originalmente no site Textão Querido de Cada Dia.

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