O que nos resta.

Leu as manchetes do dia como quem lê a previsão do tempo: um presidente ameaça “destruir completamente” o país do outro durante um encontro numa assembleia que levava as palavras “Nações” e “Unidas”. Vociferava como uma criancinha e aproveitou para estender a ameaça a outras duas “nações”, só porque gostava da brincadeira.

Mudou de página e deu mais um gole no café: longe dali, uma liminar derrapa nas palavras vagas e abre brecha para que o amor de alguém seja tratado como doença. Ah, se não é mesmo doença essa angústia que a gente sente quando não é correspondido… Será que tem remédio, doutor?

Deu mais um longo gole e fitou o pão amanteigado que chegava quentinho ao seu prato, sentindo-se quase culpada. Ergueu os olhos, em dúvida se deveria protestar ou aceitar o sorriso, que vinha fácil quando ele estava ali, preparando o desjejum como se ela fosse a única coisa que importasse. Como se aquele pãozinho e aquele café bastassem, e se surpreendeu ao perceber que bastavam, sim.

Olhou para a parede recém-pintada, para o caderno em branco sedento por palavras, olhou para seu pequeno mundo tão humildemente encaixado naquele universo de ódio, gigantesco e hostil… E pensou nos milhões de pequenos mundos que fizeram aquelas manchetes ganharem vida, pensou nos sonhos abafados e nas ideias enterradas, porque não se viam naquela grande e sufocante imagem doentia.

Quem, afinal, se veria em tão grotesco reflexo? Aquele mundo não se parecia com ninguém, mas era todos, e era ela também. Sabia que contribuía, todos os dias sem querer, com um pouquinho do que havia de pior em si mesma, dos medos às inseguranças, que se espalhavam incontroláveis até encontrarem outros e formarem uma só voz, até que não houvesse mais esperança. Até que não houvesse mais nada.

Então decidiu que não iria se sufocar. Decidiu que, pelo menos no seu pedacinho do espelho, ela se veria feliz. Pegou sua melhor caneta, mirou a primeira página e escreveu, em letras orgulhosas: “O que nos resta…” – e então hesitou por um momento. O que nos resta? Fazer nossa arte? Sermos nós mesmos? Fazermos do nosso canto uma notícia otimista para a primeira página do nosso próprio jornal?

Deu uma mordida no pão e soube imediatamente a resposta: “O que nos resta, é claro, é amar”.

 

Texto publicado originalmente no site Textão Querido de Cada Dia.

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