Caixas, parafusos e cheiro de cola

Faz quase exatamente um mês que começou a reforma. Checo o calendário duas vezes, desconfiada, porque a cartela vazia de antialérgicos e a mala, tantas vezes refeita, insistem em dizer que faz muito mais. Cronologicamente falando, porém, na medida do relógio e não dos sentimentos, tudo indica que passou-se mesmo apenas isso: um mês.

O que significa que, há pouco mais de quatro semanas, eu ainda tinha um escritório. Um escritório todo errado, com duas escrivaninhas que não combinavam, algumas prateleiras confusamente empilhadas e meus livros enfileirados um à frente do outro por ordem de uso ou preferência descarada, deixando os acadêmicos quase esquecidos lá embaixo (ao lado da miniatura de pufe que eu usava para apoiar os pés).

Eu tinha, também, um quarto. Com uma cama tão encostada à janela que era preciso deixá-la fechada, mesmo no verão, ou o resfriado e a poluição da rua passariam ligeiros pelas frestas. Como não tínhamos um ventilador no teto, nos virávamos com um pequeno e barulhento exemplar portátil, que ocupava um espaço que deveria ter sido temporário. Como meu armário, que era provisório havia uns três anos, e no topo do qual ficavam todas as coisas que não tinham lugar.

Nosso apartamento era assim, cheio de improvisos e desencaixes, que iam formando dia a dia a nossa vida semi-equilibrada. Mas a gente amava aquele lugar e foi por isso que tomamos coragem e, contra todos os conselhos, decidimos que era hora de dar-lhe um trato – assim, tudo ao mesmo tempo. Às vezes me pergunto se não éramos nós que precisávamos de uma recauchutagem…

Foi meio de repente que começou a desmontagem, e entrou em cena uma tal de desparafusadeira – coisinha interessante de função tão específica que eu jamais pensei que seria tão útil. Foram-se armários, mesas, camas, prateleiras e entraram, no lugar, uma infinidade de caixas, que rapidinho ocuparam todos os pequenos vãos entre os móveis da sala e para onde mais se pudesse olhar. Algumas, inevitavelmente, foram parar na casa da minha mãe, onde nos hospedamos desde então e de onde escrevo agora, num cantinho improvisado na sala de estar.

Escrevo nesta casa muitas vezes maior do que o nosso apartamento, mas não consigo deixar de sentir que “lar” é aquele pequenino espaço a alguns quilômetros daqui. É curioso… Morei entre estas paredes durante dezessete anos, mas voltar é como revisitar um sonho distante: tudo está quase igual, mas não exatamente. As memórias estão aqui e o corpo se lembra, mas agora sou visitante. Vejo de fora e trago comigo uma versão totalmente nova de mim.

Essa versão, me parece agora, está em algum lugar entre o provisório e o definitivo, mais ou menos como os dois cômodos temporariamente vazios. Ela se pergunta, angustiada, se nossa vida, a tantas custas realocada, caberá de volta naquela meia-dúzia de metros quadrados. Se, passada a sujeira, será possível que todas as coisas voltem a ser exatamente como eram antes, embaladas em novos móveis, planejados e laqueados… E sabe muito bem que não.

Porque a reforma, bruta como a dor-de-cabeça induzida pela cola de madeira, e insistente como o pó fino que se infiltra entre as tábuas do chão, revela tudo o que você nem sabia que podia ser diferente. Ela te observa em cenário alheio, fazendo tudo tão fora do seu jeito, e pergunta, curiosa: “mas por que não?”.

Por que não abrir mão da televisão no quarto, mudar aquele móvel de lugar, pendurar logo aquele quadro? Por que não repensar a academia, reorganizar a agenda, aproveitar seu horário mais criativo para o que você faz de melhor? E por que não deixar de lado aquele tóxico dar-de-ombros e aquele tanto-faz e assumir de vez que é você que faz a vida ser do seu jeito??

Trinta dias, três livros e meio e algumas demãos de tinta depois, acho que entendi que a casa – como nós – está apenas começando a ganhar forma. E que ainda haverá muita caixa, muito pó e muita dor de cabeça para encarar pela frente.

(que venham os banheiros.)

 

Texto publicado originalmente no site Textão Querido de Cada Dia.

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