Blade Runner 2049 (Denis Villeneuve, 2017)

Em tempos de remakes, sequências, reboots, refrescos, re-tudos, tenho tentado conter minha ansiedade por originais e observar cada filme como uma obra em si. Afinal, nada se cria, não é mesmo? A questão é o que se faz com a inspiração. E, por mais que estejam todos bebendo de nomes conhecidos e devidamente comprovados para se jogarem ao mercado com um ou dois passos à frente (ou, minimamente, se igualarem na linha de largada), nem todos se contentam em usar a herança famosa como desculpa para fazer as escolhas mais fáceis.

Blade Runner 2049”, obviamente, está longe de ser a escolha mais fácil. Desde a concepção, nunca foi seguro apostar na sequência de um dos mais importantes dramas de ficção científica do cinema – cultuado, é certo, mas um fracasso de bilheteria já na sua época. O novo filme, como se não bastasse, tem na direção Denis Villeneuve, um cineasta jovem e cheio de ideias, inovadoras demais para o público acostumado ao arroz-com-feijão dos super-heróis. Seu “A Chegada” foi um estouro entre críticos e até ganhou um “buzz” de Oscar, mas enfureceu uma audiência ansiosa pela guerra interplanetária que nunca veio.

“Sicario”, por sua vez, trouxe uma visão crua e incisiva sobre jogos de poder e os limites da lei, mas caiu no limbo dos lançamentos “médios” e resistiu pouquíssimos dias em cartaz no Brasil. Penso se “Os Suspeitos”, com toda a sua agonia, terá sido seu trabalho mais palatável até agora… Se for, isso diz muito sobre o que o público realmente quer ver.

Um filme para ver lentamente

Não surpreende, portanto, que seu “Blade Runner”, escrito pelo mesmo Hampton Fancher do longa anterior, seja um filme enorme para uma audiência possivelmente diminuta. Um filme ambicioso demais, como deveria ser – longo demais, lento demais, aberto demais. Aos olhos do estúdio, talvez isso seja um problema, mas, a longo prazo, a recompensa tende a vir. “2049”, afinal, tem um quê de subversivo como o clássico de 1982 e, como aquele, também precisa ser assistido aos poucos. Com paciência, com cuidado, várias vezes.

Parte dessa ambição está estampada na fotografia escandalosa de Roger Deakins – o mesmo de “Sicario” e “Os Suspeitos”, 13 vezes indicado ao Oscar e, certamente, 14 agora. Suas imagens não apenas deleitam os olhos com laranjas e roxos e brancos impossivelmente intensos, mas evocam a melancolia essencial das obras de Philip K. Dick (o livro) e Ridley Scott (o filme), contrastando uma natureza resistente e insistente (sempre ali, na chuva, na neve, na poeira) com um mundo artificial que engole tudo, substituindo qualquer suspiro de vida por números e letras enfileirados.

Sonhos fabricados

Esse contraste é o que move toda a obra: o protagonista, diferente do ambíguo Rick Deckard (Harrison Ford) de trinta anos atrás, é agora um androide que sabe muito bem disso. K (Ryan Gosling) também caça replicantes e orgulha-se de ser um “modelo mais obediente” do que suas vítimas, mas a verdade é que, entre as quatro paredes de seu pequeno apartamento, ele anseia pelo contato humano que lhe é diariamente negado pela vizinhança hostil.

Nesse ponto, a personagem de Ana de Armas surge como um sopro inesperado de rebeldia no roteiro, que por um momento se desprende do foco “humanos vs androides” e sugere uma possibilidade louca: e se androides pudessem ter seus próprios “replicantes”? E se um homem de carne e ossos artificiais pudesse amar uma mulher virtual, sem um nem outro? E se ela tivesse sido desenhada para lhe fazer companhia, exatamente como a Samantha de “Ela”, e compreender isso despertasse nele a dúvida sobre a própria função, o próprio livre-arbítrio, a própria natureza até então inabalada? E o que haveria de tão diferente nisso das relações verdadeiramente humanas, tão bem condicionadas?

Creio que é nesse pequeno laço que reside a maior contribuição de “2049” à discussão de “Blade Runner”: o que é real e, cá entre nós, de que importa? De que adianta separar o criador da criação se a criatura, tão aperfeiçoada, também é capaz de criar, sentir, consumir, imaginar? É a mesma pergunta de “Prometheus” (também de Scott) e do mítico Frankenstein – não por acaso chamado também de “prometeu moderno”: a humanidade anseia por gerar vida e cria, finalmente, seu “monstro”, mas jamais poderá admiti-lo como vida ou perderá a própria identidade. Ao monstro, o que resta?

Caminhos e bifurcações

O que lhe resta pode ser a fuga, como faz o personagem de Dave Bautista – de curta, porém brilhante participação – ou a resistência, como fizeram os rebeldes que provocaram um “blecaute” duas décadas antes, mencionado no filme e detalhado no curta de Shinichiro Watanabe (mais sobre os curtas abaixo). Pode ser, ainda, a obediência cega da androide Luv (Sylvia Hoeks), assistente pessoal do fabricante Niander Wallace (Jared Leto) que, é preciso dizer, é o calcanhar de Aquiles do novo Blade Runner (ela, não ele).

A personagem, apresentada quase como uma versão moderna da Rachel de 1982 (Sean Young, que inclusive retorna para uma participação especial), esboça sentimentos e perturbação, mas suas ações não parecem motivadas por nada além de uma necessidade frágil de movimentar o roteiro. Seria melhor se nos mostrassem mais do próprio Wallace e suas intenções misteriosas… Mas talvez colocar toda a ação nas mãos de criaturas artificiais seja justamente a ideia, causando um estranhamento calculado. Ainda assim, sinto que poderia haver ali um pouco mais do que uma assassina de luxo enamorada pelo mestre.

Como se vê, a quantidade de novos e antigos personagens é numerosa e suas histórias se bifurcam em mil caminhos atraentes, mas é preciso estar atento ou você perderá o que a obra tem de mais preciosa – que, como era de se esperar, são suas imagens. Pois é nos momentos de contemplação ou no suspiro rouco entre uma ação e outra, e não no movimento, que está o trabalho de Villeneuve – em cada um de seus filmes e nesse, principalmente. É preciso olhar para a chuva e pensar em tudo o que ela já lavou. Olhar para as enormes estátuas derrubadas e tentar entender, por ruínas, que tipo de império um dia se ergueu ali. Olhar para a neve e perceber o que ela sedimenta, pouco a pouco, camada por camada, e esperar.

Porque, por mais que seja uma sequência, “Blade Runner 2049” depende mais do futuro do que do passado e falha, é verdade, em se sustentar sozinho como uma peça única. Sua expansão do universo original abre tantas possibilidades que é difícil pensar que ele foi criado para ser só. Testemunhamos o arco do caçador-androide com satisfação, mas, ao seu redor, desfilam outros personagens com planos grandiosos ainda por serem realizados; preparam-se conflitos ainda por estourarem; mostra-se um mundo à beira de um colapso há trinta anos em gestação… O terreno está pronto para o que quer que venha depois.

 

Os Curtas

Antes de liberar seu “Blade Runner 2049” nos cinemas, Denis Villeneuve anunciou a produção de três curtas-metragens, dirigidos por outros artistas, que funcionariam como ponte entre um filme e outro, mostrando pequenos momentos icônicos e permitindo que conhecêssemos melhor alguns dos personagens que veríamos depois. Tendo visto os três filmes antes do longa, receio dizer que eles são essenciais. E não vão tomar mais do que 15 minutinhos do seu dia:

2036: Nexus Dawn – por Luke Scott
2048: Nowhere to Run – por Luke Scott
Black Out 2022 – por Shinichiro Watanabe


Blade Runner 2049” já está em cartaz nos cinemas. Veja numa tela bem grande.

 

Texto publicado originalmente no site Fala, Cinéfilo!.

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