A Guerra dos Sexos (Jonathan Dayton e Valerie Faris, 2017)

Esta não é a primeira vez que tenho a mesma sensação esquisita… Alguns meses atrás, ela me veio enquanto assistia ao drama “Mulheres do Século 20”, de Mike Mills: esses são os anos 70 na tela, então por que sinto como se esses diálogos pudessem ser tachados de “lacradores” em pleno 2017?

Pois é a mesma falsa-novidade – o feminismo – que inspira, também, o drama esportivo “A Guerra dos Sexos”, de Jonathan Dayton e Valerie Faris (mesma dupla de “Pequena Miss Sunshine” e “Ruby Sparks”). No filme que estreia no dia 19 de outubro, Emma Stone interpreta Billy Jean King, tenista número 1 do mundo que é desafiada por Bobby Riggs (Steve Carrell), ex-campeão aposentado, a uma partida pela honra dos gêneros – história real que aconteceu, vejam só, em 1973.

O confronto, é bem verdade, é apenas a conclusão de uma jornada muito mais longa e complicada. Antes disso, King se tornara uma celebridade e, tendo vencido o campeonato mundial, descobre que o próximo torneio ofereceria um prêmio oito vezes maior para os homens do que para as mulheres. Enfurecida, ela decide organizar seu próprio evento e arrastar consigo todas as tenistas que consegue atrair, conquistando a atenção da imprensa e, consequentemente, do veterano, que vê no burburinho a oportunidade para voltar aos holofotes.

Entre demonstrações panfletárias de machismo (que ecoam comportamentos de personagens reais de quatro décadas depois, como Donald Trump) e um sexismo mais casual (aquele em que cada comentário sobre as tenistas vem sempre acompanhado por um elogio a sua beleza – também inalterado após 40 anos), o filme caminha numa linha fina entre a crítica e a condescendência, arriscando tornar o “casual” aceitável por mera comparação.

Não que “A Guerra dos Sexos” não seja suficientemente claro em sua mensagem feminista, mas, às vezes, o discurso parece mais uma narração do óbvio (não serás desrespeitoso com as mulheres) do que uma defesa eficiente da igualdade de gêneros. Como assim?

Assim, de duas formas: primeiro, o machismo mostrado na tela está tão concentrado em certos personagens que o público tem mais chances de rir de suas bobagens do que de levar o problema a sério. Segundo, o duelo em si pode ter seu valor simbólico, mas não deveria ser nenhum grande desafio para a protagonista, uma atleta em atividade que enfrenta um homem duas vezes mais velho, fora de forma e desconcentrado. Julgar que ela terá dificuldade nessa missão é concordar com a teoria de que homens são, magicamente, melhores em tudo.

Isso não tira, é claro, o mérito do filme de expor uma história bizarra e até engraçada, carregada por duas atuações estupendas de Stone e Carrell. Não tira, tampouco, a surpresa por encontrar, além da trama central sobre a “guerra dos sexos”, uma secundária sobre um romance homossexual bastante delicado e respeitoso – que não isenta o filme de estereótipos, mas mostra uma tentativa de trabalhar a questão de gênero por ângulos mais abertos. Essa segunda linha, inclusive, ofusca a primeira em diversos momentos e me faz pensar se esse não deveria ter sido o foco desde o princípio.

Fazendo um balanço, acho justo dizer que “A Guerra dos Sexos” não é nenhuma experiência transformadora, nem é uma obra provocante ou especialmente ousada. Ela é, por outro lado, uma história muito interessante e divertida, que traz à tona dois personagens encantadores e algumas das melhores interpretações do ano. Só por isso, já vale o ingresso.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s