Três Anúncios Para Um Crime (Martin McDonagh, 2017)

Expectativas são uma coisa engraçada… Quando li sobre o novo filme de Kathryn Bigelow – a única mulher a ganhar o Oscar de filme e direção, em 2010, pensei que “Detroit” seria o filme que o mundo precisava ver hoje. Era uma obra pesada, sobre a repressão policial, o preconceito, a violência e tudo o que está tão na moda, ainda que tão século passado…

Mas não era “Detroit” que o mundo precisava ver. Era “Três Anúncios Para Um Crime”, tragicomédia do não-tão conhecido Martin McDonagh (“Na Mira do Chefe” e “Sete Psicopatas e um Shih Tsu”) que está na programação da Mostra Internacional de Cinema de SP e vai entrar em cartaz no circuito apenas em fevereiro de 2018.

O filme traz Frances McDormand numa atuação assombrosa no papel de Mildred Hayes, a mãe de uma menina que foi estuprada e assassinada, mas cujo assassino não foi encontrado, mesmo depois de meses. Indignada, ela decide pressionar justamente o mais respeitado dos policiais de Ebbing, Missouri: o xerife Bill Willoughby (Woody Harrelson), que ela sabe que está sofrendo com um câncer.

O que os tais anúncios (outdoors, na verdade) trazem escrito nem é tão importante assim, mas o que sua mera existência provoca é o que precisa ser discutido. Este é um filme sobre violência, e sobre como a violência gera violência numa espiral incontrolável de acasos, boas intenções e más intenções que poderia muito bem ter saído de um filme dos irmãos Coen – exceto que, aqui, as risadas nervosas convivem com lágrimas grossas e olhos perplexos.

Além de Mildred, também povoam a cidadezinha outras figuras interessantíssimas: Red (Caleb Landry Jones) é o dono da empresa de publicidade que vende os outdoors, um tipo espertinho e focado no dinheiro, mas em constante crise com a própria moral. Jason Dixon (Sam Rockwell, que forma com McDormand uma dinâmica hipnotizante) é um oficial esquentado, com um histórico de violência e uma sequência de ações desastrosas motivadas pela relação freudiana com a mãe. Já James (Peter Dinklage) é “o anão” da cidade, vítima invisível de todas as “pequenas” maldades que ninguém realmente considera, e Robbie (Lucas Hedges) é o outro filho de Mildred, tratado exatamente como isso – o outro. Há também o ex-marido de Mildred, sua nova namorada, o segundo xerife vivido por Clarke Peters e alguns outros passantes, todos com aquela expressão enigmática de quem tem uma história a contar.

É interessante como o filme nos apresenta, em meio à bomba-relógio que é essa comunidade, uma espécie de heroína justiceira encarnada em McDormand, só para depois desconstruir essa aura a cada cena. Aos poucos, McDonagh transfere nosso repúdio da violência evidente cometida contra a garota para aquela que cada um dos personagens acaba praticando por suas próprias razões, como reações que nós, provavelmente, também poderíamos ter num momento de raiva.

No fim, “Três Anúncios” parece funcionar como um grande apelo pela empatia em momentos de crise, um apelo alto e nítido que toca nas cordas certas e que pode, por seu sarcasmo e seus (raros) momentos de doçura, ter consequências mais transformadoras do que um retrato, cru e agressivo como o de Bigelow, da realidade brutal. Violência, afinal, só gera mais violência.

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