Manifesto (Julian Rosefeldt, 2015)

Treze vezes Cate Blanchett deveria ser o suficiente para atrair qualquer pessoa que goste de cinema à sala mais próxima a partir desta quinta-feira, 26 de outubro. É quando estreia um filme exótico chamado “Manifesto”, dirigido pelo australiano Julian Rosefeldt e protagonizado por 13 personagens bem diferentes interpretados com precisão pela mesma atriz-camaleoa.

Apesar do efeito-Blanchett, vale avisar que “Manifesto” não é exatamente um filme de massa, que vai agradar a gregos e troianos, de Humanas a Exatas. Ele é um filme para quem ama arte e tem um mínimo de bagagem na área. Minha sensação ao ver, por exemplo, foi a de que eu gostaria de ter assistido a esse filme quando ainda estudava História da Arte, e tinha frescos na memória alguns dos mais de 50 manifestos artísticos que Rosefeldt costurou para construir seu próprio Tratado sobre o que a arte vem dizendo sobre si mesma nos últimos 200 anos. E, depois de assistir, quis buscar cada um dos textos e começar de novo.

Confuso, eu sei, mas esse é o caminho. O filme, afinal, é mais uma experiência de reflexão do que uma narrativa com começo, meio e fim – mas, para quem embarca, é uma experiência das mais transformadoras. O que o diretor e roteirista faz é combinar trechos de manifestos diversos com cenas que endossam ou contradizem essas palavras, dando novos sentidos a ideias concebidas em contextos muito específicos da História.

Junto com os monólogos dos personagens de Blanchett – que vão de um mendigo a uma coreógrafa, passando por uma punk decadente e uma cientista num laboratório futurista, a própria atriz adiciona às cenas uma voz de narrador, que por vezes completa e por outras questiona tudo o que foi dito até então, dando ao espectador a chance de enxergar aqueles textos com olhos críticos e não, apenas, contemplativos.

Vemos, por exemplo, uma mulher em luto proferir um discurso dadaísta raivoso sobre o túmulo de um ente querido; vemos uma estação de processamento de lixo ser exaltada por um manifesto à arquitetura; uma família à mesa aguardar a “oração” de uma ode à Pop Art e duas jornalistas travarem um diálogo questionando os paradoxos mais profundos da arte conceitual.

No mais climático dos segmentos, uma professora pede aos alunos que produzam desenhos, “roubando” inspiração de qualquer lugar que desejem em busca de uma criação autêntica, só para no minuto seguinte tirar da manga o Dogma 95 e estabelecer uma série de regras restritivas que podarão sua criatividade. Pois não é isso que sugere todo e qualquer manifesto artístico? Que sejamos livres para fazer nossa arte, mas a façamos sob tal objetivo, tais técnicas e tais ideais?

“Manifesto” é, assim, um “manifesto contra manifestos”, ao mesmo tempo em que é uma aula sobre eles. O espectador provavelmente não entenderá todos os textos de uma vez, e se esforçará ao máximo para extrair de cada performance uma interpretação clara, sem sucesso, mas ver todos esses momentos históricos de uma só vez na tela, dialogando e se contrapondo e se descobrindo falhos e incompletos, já passa uma mensagem bem clara mesmo que suas peças estejam embaçadas: arte não é coisa de poucos, não há certo ou errado, não há “missão sagrada” ou “função social”. A arte é tudo e, acima de tudo, é inquietação. E ela pode ter 13 ou muito mais identidades unidas apenas pelo mesmo nome.

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