Assassinato no Expresso do Oriente (Kenneth Branagh, 2017)

Mesmo que você não seja um leitor dos mais vorazes, se você esteve por perto dos cinemas ou da televisão nos últimos anos, com certeza conhece o sagaz e arrogante detetive Sherlock Holmes. Hercule Poirot, por outro lado, apesar de igualmente brilhante e consideravelmente mais elegante, andava esquecido entre as poeiras das coletâneas de Agatha Christie – até agora.

Na próxima quinta, 30 de novembro, chega aos cinemas uma tentativa muito bem vinda do diretor e ator Kenneth Branagh de trazer de volta os encantos dos “casos de detetive” com a adaptação de “Assassinato no Expresso do Oriente” – uma versão bastante fiel e sem pretensiosas sequências de ação que aguça a curiosidade ao mesmo tempo em que diverte com seus personagens-tipos.

O longa é estrelado por ele mesmo como o bigodudo Poirot e tem um elenco de primeira linha encarnando os numerosos suspeitos do luxuoso trem – incluindo nomes como Michelle Pfeiffer, Daisy Ridley, Willem Dafoe e Judi Dench. A intenção óbvia do estúdio (a 20th Century Fox) é que este seja apenas o primeiro de uma franquia que mostrará cada um dos casos mais famosos da autora, provavelmente lançados sempre nesta época de fim de ano para atrair toda a família.

Pessoalmente, não vejo por que o investimento não seria um sucesso. Há tempos não vemos nos cinemas um mistério tão claro e bem contado como são os clássicos de Christie, embalados quase sempre pela famosa pergunta “quem matou?”. Há, ainda, a vantagem de que boa parte do público mais jovem nunca leu a autora, e quem leu provavelmente o fez há tempo suficiente para ter esquecido quem foi cada um dos assassinos.

“Assassinato no Expresso do Oriente”, em si, cumpre a promessa de transpor para a tela pelo menos parte do suspense que marca a obra original, apesar de seu tom se aproximar mais de um humor ingênuo e de um quebra-cabeças de férias – um inofensivo, mas muito agradável quebra-cabeças de férias. Branagh, sempre certeiro, conquista o público desde a primeira sequência, quando resolve um grande mistério em segundos a partir de uma rachadura na parede, depois de perder horas em busca dos ovos perfeitos. O restante do elenco, nem é preciso dizer, é simplesmente um deleite.

Algo na edição, porém, me pareceu fora do lugar. Uma cena específica talvez tenha sido cortada ou mal amarrada, de forma que a resolução do crime chega no momento errado, depois de uma confissão e de um confronto que jamais deveriam ter acontecido. Talvez seja preciso voltar e olhar novamente, mas o fato é que não temos aquela sensação de “eureca!” que costuma vir ao final dos romances policiais – e isso, para um filme baseado na obra da “dama do crime” em pessoa, é, em si, um delito dos mais hediondos.

Essa conclusão atrapalhada pode, é claro, influenciar nas bilheterias e até nos planos de sequência para o futuro, mas prefiro pensar que não é o caso. Afinal, apesar das falhas, “Assassinato…” trouxe de volta uma sensação antiga e nostálgica de conforto, de quem vê que até as perguntas mais difíceis podem ser respondidas, desde que se preste atenção. Que venha “Morte no Nilo”.

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