Viva – a vida é uma festa (Lee Unkrich, 2017)

Não sei por que ainda me surpreendo quando dois filmes tão parecidos chegam aos cinemas, seja concorrendo brutalmente ou agindo como se não soubessem da existência um do outro. Num mundo tão fechado em si mesmo como Hollywood, estranho seria se as ideias não circulassem, se colegas de redação, edição e festivais não deixassem escapar um projeto ainda não realizado, um sonho distante, uma visão ainda turva ou um rascunho bem detalhado que assinaram cheios de orgulho ou abandonaram desiludidos…

Mas surpreendo-me ainda, de vez em quando, e foi pensando nas palavras “plágio”, “imitação” e “arrogância” que recebi a notícia de que a Disney, por meio de sua afilhada mais talentosa (a Pixar) estava pensando em lançar um filme sobre o Día de Los Muertos, com um visual e uma premissa descaradamente semelhantes aos de outra animação – a mais “autêntica” “Festa no Céu”, dirigida pelo mexicano Jorge Gutierrez e produzida por Guillermo del Toro em 2014.

À esquerda, “Festa no Céu” (2014). À direita, Viva – A Vida é Uma Festa” (2017).

Uso essas aspas irônicas, hoje, porque vejo a ingenuidade em minha presunção de julgar uma obra ou outra por seu direito de existir. Ora, quantos filmes “gêmeos” como estes já não saíram dos estúdios sem provocarem tanto bafafá? Ou ninguém reparou que “Capitão América: Guerra Civil” e “Batman vc Superman” tinham basicamente o mesmo enredo, que “Margueritte” e “Florence: Quem é essa mulher?” eram o mesmo filme sob olhares diferentes, que um novo “Mogli” chegará em 2018 tentando sair da sombra do “Mogli” de 2016 e que duas biografias de Winston Churchill acabaram de sair e outras duas de Zelda Fitzgerald estão a caminho?

Pulemos, portanto, para o que realmente interessa: afinal, o que esperar desse tal de “Viva – a Vida é uma Festa”? Primeiramente, sim, um visual bem parecido com o de seu “primo” hispânico – dos tons neons e formas empilhadas que compõem um belo Mundo dos Mortos até as caveiras desenhadas em violões e espalhadas por todos os cantos. Em segundo lugar, uma história com todo o carimbo da Pixar, emocionante na medida certa e carregada de lições de vida relacionadas à família, ao respeito e à inocência. E, por fim, uma das personagens mais lindas que o estúdio já conseguiu desenhar – o que não é pouco.

A bisavó de Miguel, Inês, é uma das personagens mais memoráveis que a Pixar já criou.

O filme tem no centro um garotinho mexicano chamado Miguel. Apaixonado por música, ele é obrigado a reprimir seu talento porque sua família – o clã de sapateiros Rivera – abomina qualquer vestígio de ritmo e melodia. O motivo é um velho trauma familiar: sua tataravó fora abandonada pelo marido, um músico, porque ele preferiu a fama e os palcos à vida estável com sua filha pequena. A menina, agora, é uma senhora enrugadinha que vive sentada em sua poltrona e tem a memória já bastante instável, mas, mesmo assim, Miguel a adora e faz dela, convenientemente, sua única confidente. Essa é a bisa Inês – a tal personagem que fará dez em cada dez marmanjos soluçarem no escurinho do cinema.

A história começa no famoso Día de los Muertos, quando a tradição pede que se levem ao cemitério oferendas e fotografias dos que já partiram, para que esses possam visitar os vivos. Miguel nunca ligou muito para o costume e, bem nessa data, resolve que irá participar de um concurso de talentos na praça central. Desventuras vão e vêm e, sem querer, o menino acaba atravessando para o lado de lá, encontrando parentes que nem conhecia e embarcando numa jornada fantástica em busca de seu maior ídolo – o músico falecido Ernesto de la Cruz.

A importância da família e de lembrar aqueles que se foram é o tema central do filme.

“Viva” pode até partir de um grande estereótipo mexicano (como é o Carnaval para o Brasil), mas sua abordagem da cultura vizinha é respeitosa e provoca no público não aquela sensação de exotismo, mas sim uma admiração diante de uma sabedoria profunda e antiga. A cerimônia, mais do que charmosa, mostra que a morte pode ser encarada de outra forma (de um jeito não tão diferente do que vimos na animação “Kubo e as Cordas Mágicas”, em 2016, que explorava, no lugar, a cultura japonesa) e a jornada de Miguel tem como foco não sua latinidade como pobreza ou sofrimento, mas como orgulho, determinação e amor à família. Vale notar que há, ainda, um toque de “novela mexicana” em todo esse drama familiar que faz do filme uma homenagem ainda mais cuidadosa à cultura latino-americana – mesmo que, é claro, a intensidade seja outra.

No fim das contas, “Viva” é uma boa surpresa depois de um grande fracasso (“O Bom Dinossauro”) e duas sequências (“Procurando Dory” e “Carros 3”) simpáticas, mas esquecíveis lançadas pela Pixar nos últimos anos. Se ele conquistará o prestígio de “Divertida Mente”, “Wall-E” ou “Ratatouille”, isso, provavelmente não. Mas é certo que conquistará os corações de quem quer que se aventure a viajar pelos seus mundos nesta virada de ano. O filme estreia no Brasil no dia 4 de janeiro.

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