CCXP: superpoderes, superdesafios

Nos últimos quatro dias, uma palavra específica voltou a ressoar por todos os sites nerds e moderninhos do Brasil, repetida com relutância pelos gigantes dinossauros, como vem acontecendo todos os anos há exatamente quatro dezembros. “Épico”, é o que se diz. “Épico”, porque é sobre estas cinco letras que se apoia toda a comunicação da feira brasileira de quadrinhos, filmes, séries e games chamada Comic Con Experience – ou, apelido mais independente das avós internacionais, CCXP.

O fato é que a CCXP se tornou, em apenas quatro edições, a maior do seu tipo no mundo inteiro. Um feito e tanto, especialmente considerando que a palavra “nerd” no Brasil foi encarada por muito tempo como um insulto e, mais do que isso, que o acesso à cultura e o seu consumo, em geral, carregam todo ano estatísticas dignas de lágrimas e arrepios. Mas o que significa isso?

A PALAVRA “NERD” NO BRASIL FOI ENCARADA POR MUITO TEMPO COMO UM INSULTO

Bem, considerando o tamanho do nosso país e o peso ainda ínfimo que a cultura pop tem sobre nossos esmagadores números, não significa tanto… Mas, para o público que de fato consome cinema e, ainda mais, para a imprensa independente que trabalha com isso, ter uma CCXP desse tamanho significa que a cultura nerd deixou de ser contracultura e, oficialmente, alcançou o mainstream. E que não faz mais sentido se apresentar como “nicho”, como eles ainda fazem.

É claro que a feira brasileira é muito mais sintoma do que causa – como a série “The Big Bang Theory” foi, talvez, o primeiro raio-x a denunciar algo fora do lugar. Mas olhe à sua volta: não são os leitores de Frank Miller, os otakus, os cinéfilos ou os colecionadores que lotam os corredores da maior convenção do assunto no mundo. São pessoas comuns, que veem os filmes que têm maior orçamento de publicidade, que compram uma bolsa da Mulher-Maravilha porque é bonita ou que querem se divertir tirando fotos com cosplayers e ganhando pôsteres em brincadeiras organizadas pelos estúdios durante um fim-de-semana porque esse é o evento mais interessante do momento na sua cidade. São fãs, sim, mas não são nerds no sentido que a palavra tinha cinco ou dez anos atrás. E nem precisam ser.

Público passeia pelo Artist’s Alley na CCXP 2017, onde artistas independentes mostram seus trabalhos. Fotos: Flávio Battaiola/Galpão de Imagens

Porque o que era único se tornou universal, e o que era um grupo de oposição se tornou aquele que dita as regras. E com grandes poderes, é claro, vêm grandes responsabilidades. Como a expectativa que precisa ser superada a cada edição, o hype que precisa ser mantido durante o ano todo e esse senso de “épico” que, justificado ou não, precisa ser fabricado a cada post nas mídias sociais.

Os desafios da CCXP são mais ou menos os mesmos da Marvel Studios quando pensamos em cinema. Ambos encontraram uma fórmula eficiente para manter os fãs interessados: convencê-los de que fazem parte de um grupo especial, e que sabem algo que ninguém mais sabe porque são “fãs de verdade” – e ambos fazem isso espalhando easter eggs e referências em absolutamente todos os seus produtos, como se dividissem seu público entre os que vão “consumir apenas a superfície” e os que vão, de fato, fazer parte do clube.

Diretor Robert Rodriguez fala sobre seu filme “Alita: Anjo de Combate” na CCXP 2017. Fotos: Daniel Deak / Galpão de Imagens

Cá entre nós, porém, vejo duas armadilhas aí. A primeira é que, com a cultura nerd dominando o mainstream, essas referências “ultra-especializadas” serão cada vez mais fáceis de reconhecer – hoje, qualquer pessoa na rua sabe quem é Darth Vader, consegue pronunciar “Leviosa” com a tônica correta e provavelmente não terá dificuldade para separar os heróis mais famosos entre Marvel e DC. Não demorará até que outros nomes mais obscuros entrem para o vocabulário popular, fazendo dessa obsessão pela referência “exclusiva para fãs” um ideal cada vez mais teimoso e ilusório.

O segundo problema é que toda fórmula repetida à exaustão tende a cansar o público, mais cedo ou mais tarde. No caso dos super-heróis engraçadinhos, admito que o cansaço demorou a chegar, mas já está no horizonte. No caso da CCXP, provavelmente ainda levará alguns anos para que o público menos apaixonado enjoe da novidade e, quando isso acontecer, é preciso estar pronto para receber de volta o fã hardcore e oferecer a ele, ano a ano, algo que recompense as horas de fila e o dinheiro investido. Algo que não sejam apenas estátuas colecionáveis de uma marca só, trailers divulgados simultaneamente na internet ou artistas internacionais desfilando por um palco distante durante 15 minutos ou menos. Algo, realmente, exclusivo.

Estátua da Iron Studios recria cena da HQ The Dark Knight Returns, de Frank Miller. Fotos: Gustavo Scatena/Galpão de Imagens

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