Cinema em mutação – quando a Disney comprou a Fox

Aconteceu, enfim. Era questão de tempo, mas alguma parte de mim ainda acreditava que a 20th Century Fox conseguiria resistir às investidas da Walt Disney Company e manteria, pelo menos, algum vestígio do poder que um dia garantira seu lugar entre os “gigantes” de Hollywood” – os “majors”, os mais antigos e importantes estúdios da cidade das estrelas.

Mas aconteceu, é claro, e nesta quinta-feira a Disney anunciou a compra da única peça que faltava para que seu “Universo Marvel” pudesse ser completo: os X-Men. Ela, evidentemente, não se deu por satisfeita com alguns mutantes e incorporou todas as outras propriedades da concorrente – pense em Simpsons, FX e National Geographic, pense em todos os próximos filmes da franquia “Avatar” que James Cameron prometeu fazer, em Ridley Scott e seus Aliens (ou suas inteligências artificiais) ou na encerrada trilogia “Planeta dos Macacos”, que provavelmente verá, agora, mais alguns reboots.

Talvez eu seja a única, mas confesso que fiquei decepcionada com a notícia. Preocupada, até. Não sou particularmente fã dos filmes centrais da franquia X-Men, vejam bem, mas a verdade é que o estúdio finalmente estava se permitindo arriscar nesse universo, acertando brilhantemente em “Logan” e na série “Legion”, sem contar no supervalorizado “Deadpool” (me peguem na saída). E, se esse foi justamente o incentivo para que a Disney se empenhasse mais na aquisição, também será, provavelmente, o último suspiro de originalidade nesse mundo cinematográfico de super-heróis. Daqui para a frente, todos seguirão a infalível fórmula comédia-ação-amizade estabelecida pela empresa-mãe anos atrás, independentemente de suas individualidades. Como foi com a Pixar. Como está sendo com a LucasFilm. E não me digam que não está.

Não que a Fox, em si, estivesse inventando a roda. Pensar em super-heróis como indivíduos perturbados e em superpoderes como fenômenos inconvenientes, assustadores ou capazes de enlouquecer uma pessoa não é, exatamente, uma novidade, apesar de soar como tal. Já vimos isso antes. Eu, pelo menos, já vi quatro* vezes nos últimos dois anos e mais uma, muito mais distante, 17 verões atrás.

Foi quando “Corpo Fechado” entrou em cartaz, quase destruindo a carreira recém-inaugurada de M. Night Shyamalan (curiosamente, lançado pela Touchstone, ligada à Walt Disney – mas isso vinha depois do sucesso de “O Sexto Sentido” e Shyamalan era um nome forte). Na época, sua proposta de trazer o conteúdo dos quadrinhos para o cinema de gênero era a coisa mais subversiva que poderia haver nos multiplexes e a recepção não foi assim tão boa. Eu mesma detestei o que vi – cadê a ação? Cadê o confronto? Cadê o desfecho? Estranhei, como estranhamos todos.

Mas é essa a maior característica da contracultura – o estranhamento – e ela não é a única. A outra é que, se crescer demais, ela acaba sendo incorporada pela cultura dominante até deixar de ser “contra” e perder tudo o que a definia como diferente em primeiro lugar. E isso não é nenhuma tragédia, é apenas inevitável. Foi assim com o rock, foi assim com o hip hop e, caso você não tenha notado, está sendo assim com a cultura nerd em geral. A chegada desses “heróis humanos” talvez seja o passo que faltava para que o cinema de nicho ganhasse status de drama universal, e que suas espadas, lasers e sabres de luz conquistassem a Academia e o mundo.

A diferença de ver isso acontecer num estúdio como a Fox ou em outro como a Disney é que, diante de veteranos tão brutos quanto os Vingadores e os Guardiões da Galáxia (de quem eu gosto, aliás, mas nem por isso desejo que todos se tornem iguais a eles), será muito difícil que a sutileza de Logan ou a cara-de-pau de Deadpool consigam sobreviver por muito tempo, ou que outros como eles venham a se juntar ao time. Logo, logo – e vocês nem vão perceber, porque o hype será esmagador – eles voltarão a ser, apenas, Wolverine e o cara estranho com a boca costurada.

Que a Disney me prove errada.

* Nota: caso você esteja curioso para saber quais foram os quatro filmes semelhantes aos “Novos Mutantes” (próximo e último lançamento da Fox com os X-Men, em 2018), pensei em “Thelma”, “Fragmentado”, “Logan” e “O Sono da Morte” – esse último, aparecendo aqui quase como um spoiler. Perdoem.

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