Jumanji – Bem-vindo à Selva (Jake Kasdan, 2017)

O que é “Jumanji” para você?

Se você nasceu entre os anos 80 e 90, provavelmente essa palavra significa um misto inexplicável de fantasia, horror, estranheza, emoção e a pulsação misteriosamente assustadora de uma caixa na areia. Agora, se você nasceu em qualquer momento antes ou depois disso, sua descrição de “Jumanji” será algo mais parecido com “um filme de aventura onde um menino é sugado para dentro de um jogo e animais da selva invadem a cidade”. Pare um segundo para digerir essa ideia.

O que quero dizer com isso é que, se você for aos cinemas nas próximas semanas conferir “Jumanji – Bem-vindo à selva” esperando pelo “seu Jumanji” – ou seja, por um filme mais sombrio do que ensolarado, mais esquisito do que padrão, com um drama psicológico permeando cada desafio e crianças traumatizadas ao final da experiência – você vai se decepcionar. Não que os nomes “The Rock” e “Jack Black” já não tenham te alertado o suficiente.

Mas experimente esquecer que esta se trata de uma “sequência”, pense no novo filme como uma comédia de férias totalmente independente do clássico da sua infância e você, muito provavelmente, vai rolar de rir e sair satisfeito da sessão.

Porque “Jumanji – Bem-vindo à selva” é um filme produzido em 2017 para o público de 2017, que aproveita uma parcela da ideia explorada no longa de 1995 (a de que um jogo contém um mundo inteiro dentro de si) para brincar com referências de video-games, questões atuais de gêneros e estereótipos e oferecer a crianças, adolescentes e até adultos uma diversão leve e sem maiores pretensões.

Tudo começa assim: estamos nos dias de hoje e quatro adolescentes são levados à detenção por motivos diferentes (alô, “Clube dos Cinco”!). Lá, enquanto fazem a faxina de um depósito, eles encontram um console de video-game dos anos 90 com um único cartucho e uma TV de tubo. Ligam-se os fios, distribuem-se os controles e, voilá, temos quatro novas vítimas de Jumanji!

Algumas considerações aqui: primeiro, o filme dá uma explicação bastante esfarrapada sobre como o jogo de tabuleiro se transmutou para a nova forma, mas tente não levar isso tão a sério. Segundo, as regras são diferentes desta vez: no primeiro “Jumanji”, cada casa do tabuleiro continha um desafio distinto e os dados determinavam quais deles você precisaria enfrentar. Aqui, as fases são bem definidas e todos os jogadores passam pelas mesmas experiências, com a diferença de que eles têm habilidades diversas e precisam combiná-las para vencer (sim, isso é bem clichê).

Além disso, antes o personagem de Robin Williams só passava para o “lado de lá” porque esse era um dos desafios, mas isso não acontecia com todos e nem era a regra (em geral, as criaturas faziam o caminho inverso). Agora, porém, todo o jogo se passa na selva e o mundo real não é afetado, exceto pelo sumiço dos personagens.

O que o filme traz de mais interessante, porém, não tem tanto a ver com sua herança, mas sim com sua nova identidade como jogo virtual. Afinal, para convencer a nova geração de que esse é um jogo “legítimo” (dos anos 90, vamos lembrar), o filme investe em diversos detalhes específicos desse universo: espere para ver o flashback narrativo ou as falas programadas dos personagens nativos e você entenderá do que estou falando.

Também entra nesse ponto, é claro, o fato de que, dentro de Jumanji, os jogadores assumem as identidades dos avatares que escolheram – e, convenientemente para a comédia, cada adolescente típico assume o oposto da própria personalidade. O garoto nerd reencarna no protagonista forte e intenso (Dwayne Johnson, o The Rock); a menina tímida e estudiosa vira uma mulher de roupas curtas e especialista em artes marciais (Karen Gillan, a Nebula de “Guardiões da Galáxia); o atleta alto e intimidador se torna o braço-direito do explorador, baixinho, lento e responsável apenas por carregar as armas (Kevin Hart); e a garota popular viciada em selfies acorda na pele de… Bem, de Jack Black.

Por tudo isso e pelo timing perfeito das piadas, “Bem-vindo à Selva” tem tudo para ser um sucesso. Por outro, é justo pensar que este “Jumanji” dificilmente será lembrado com carinho durante 20 anos, como o seu antecessor, e é fácil ter ressalvas quanto à sua escolha de manter o nome e se colocar como uma sequência, quando, na verdade, ele poderia muito bem se admitir como um filme, relativamente, original (não vejo por que a história de jovens sendo transportados para outro mundo seria exclusividade de “Jumanji” e, cá entre nós, quase toda fantasia protagonizada por crianças faz isso, mudando apenas o objeto-portal).

Contudo, talvez “ser lembrado” não seja o objetivo deste lançamento, mais preocupado em sobreviver à concorrência de “Star Wars” e em durar alguns meses em cartaz sem dar prejuízo – e ter um nome forte como “Jumanji” no título garante meio caminho andado. Essa é a Hollywood de 2017, e isso é o que esperam os grandes lançamentos de férias em tempos como estes: sobreviver a uma selva muito mais perigosa do que Jumanji. A das bilheterias, das expectativas e do hype.

“Jumanji – Bem-vindo à Selva” estreia no dia 4 de janeiro nos cinemas.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s