U.S.S. Callister e o nerd que nunca será pop

Não é preciso ser especialista para dizer que a cultura nerd está em alta. Filmes de super-heróis ocupam, todos os anos, pelo menos quatro ou cinco entre as dez maiores bilheterias no ranking mundial, franquias como “Star Wars”, “O Senhor dos Anéis” e “Harry Potter” estão entre as mais bem-sucedidas de todos os tempos nos cinemas e os grandes estúdios continuam sonhando em conquistar o público gamer com uma adaptação decente de pelo menos um dos principais jogos milionários do mercado.

Mas olhe mais de perto e você verá que não é o nerd, exatamente, que está na moda. Não é o cara estranho do T.I. que, de repente, virou o rei do escritório, ou a garota estudiosa com um livro embaixo do braço que, de uma hora para a outra, ganhou a atenção de todos os meninos (e meninas) do colégio. Esses, continuam na mira dos cochichos e travessuras dos colegas que nunca serão nerds. E que se orgulham disso, sob suas camisetas estampadas com capacetes brilhantes do Darth Vader.

Como o protagonista do primeiro episódio da quarta temporada da série “Black Mirror”, “U.S.S. Callister”. Tentadoramente inspirada na série-ápice da cultura nerd, “Star Trek” (ou “Jornada nas Estrelas”, para os fãs mais old-school), “U.S.S. Callister” explora uma fantasia futurista que escala rapidamente para um pesadelo coletivo. No centro, está o “gênio da programação” Robert Daly (Jesse Plemons), sócio de uma empresa que desenvolveu um ambiente virtual para que seus usuários pudessem viver as aventuras que quisessem.

Até aí, nada de novo no front. O problema é que Daly se deu a liberdade de criar um ambiente particular dentro desse enorme “The Sims” e viajar por ele em suas horas vagas. Seu lar virtual é uma nave inspirada em sua série de TV favorita, povoada por uma tripulação que o venera – formada, curiosamente, por todos os seus colegas do escritório que, na vida real, o desprezam.

Cá entre nós, você já viu isso antes. Não essa história, em particular, que é até bem interessante, mas esse cenário: a turma da firma ou da escola olha torto para o nerd antissocial e começa a imaginar teorias. Seria ele um psicopata? Teria ele escondido um corpo dentro do seu frigobar? Estaria ele observando a todos para usar seus segredos contra eles? Por que ele não fala nada? Por que não sabe lidar com mulheres? Por que encara tanto?

Porque, e aí é que está o detalhe que a cultura nerd de massa nunca vai entender, ou ensinar para os seus novos fãs, ser “nerd” não é sinônimo de ser obsessivo ou viver num mundo de fantasia onde você é o todo-poderoso. Na verdade, as histórias mais amadas por eles (nós?) normalmente falam de amizade, justiça, insegurança, não de poder ou vingança. Isso é Hollywood.

O que nos faz “nerds”, muitas vezes, é o fato de que prestamos tanta atenção aos detalhes que acabamos pensando demais, e hesitamos porque consideramos tudo o que poderia ser dito e tudo o que poderia soar idiota. Ser “nerd”, às vezes, é enxergar naquele produto de ficção aparentemente bobo uma mensagem com a qual você se identifica, ou sentimentos e ideias nos quais ninguém mais vai reparar, por baixo da superfície da história. E é, sim, usar tudo isso para criar, escrever, desenhar – imaginar, por que não? Mas não porque, no seu universo, você pode esmagar os outros…. E sim porque, no seu universo, os outros podem ser incríveis.

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