O Destino de Uma Nação (Joe Wright, 2017)

A temporada de prêmios está entre nós e isso, quase sempre, significa que veremos pelo menos um filme estrelado por um ator irreconhecível – mérito da maquiagem ou da atuação, é sempre difícil dizer. Desta vez, quem se aventura em corpo estranho é o mago Gary Oldman: ele, que já foi Drácula, Comissário Gordon e Sirius Black, agora assume os quilinhos a mais de Winston Churchill na biografia “O Destino de Uma Nação”, principal estreia desta quinta, 11 de janeiro.

Sobre Churchill e suas políticas de guerra, admito que sei pouco. Devo ter visto mais do que alguns filmes sobre o assunto, mas sempre acabo relegando-os às áreas mais remotas da memória, sem arrependimentos. Isso não me impede, porém, de apreciar a interpretação de Oldman – brilhante, com ou sem maquiagem, gritando a plenos pulmões ou fechado em pensamentos, o olhar sempre observador e insatisfeito.

O desinteresse pelo tema também me dá tempo de sobra para mergulhar nas extravagâncias visuais de Joe Wright – diretor de “Peter Pan” e “Anna Karenina”, consideravelmente mais contido aqui. Desta vez, Wright segura o freio em cenários e figurinos de época para investir sua imaginação em enquadramentos que dizem mais do que os diálogos em si, reforçando ora a dificuldade de comunicação entre aqueles homens brancos de meia idade, ora a futilidade de tudo aquilo. Numa cena, a lente observa um pequenino avião no céu de dentro da mão de um menino no solo e, em outra, uma chuva de bombas caem no ritmo da trilha sonora, como se zombassem de suas vítimas.

Encontramos Churchill sendo eleito Primeiro Ministro a contragosto, em meio à Segunda Guerra Mundial, depois de ter cometido alguns erros fatais na Primeira. Sua postura combativa vai de encontro com o que pregava o ministro anterior, mais diplomático, e sua proposta de sacrificar um batalhão para salvar os muito mais numerosos soldados em Dunkirk é recebida com, para dizer o mínimo, desconfiança.

Mas estratégias de guerra não são o forte do filme de Wright e ele agradece a Christopher Nolan por ter aprofundado o tema uma temporada antes com seu “Dunkirk”. No lugar, Wright se debruça não sobre o que Churchill e seus colegas fazem entre portas fechadas, mas sim sobre como eles o fazem. Logo na cena inicial, um grupo de senhores sentados numa sala escura tortura nossos ouvidos com gritos histéricos condenando isso ou aquilo e lembrando, mais do que gostaríamos, dos nossos próprios políticos descontrolados.

Dr. Fantástico”, de Stanley Kubrick, é o filme que vem à mente, logo de cara: que pretensão a nossa querer discutir paz enquanto praticamos a guerra! Penso, também, no Brexit e em como essa separação de territórios, hoje, vai contra tudo o que representou esse capítulo na História, quando a Inglaterra decidiu não se fechar em sua ilha e cinco nações se uniram na evacuação da costa francesa. É evidente que Wright, britânico, quis passar uma mensagem (fossem quais fossem as motivações das nações naquele momento).

Se “O Destino de Uma Nação” é um filme excelente ou apenas mais uma biografia de olho no Oscar, é difícil precisar. É certo que ele comete alguns pecados, e a própria ideia de que “vamos lutar até o fim” é repetida com um pouco mais de entusiasmo do que seria realista… Mas creio que o realismo não seja a intenção. Aqui, a impressão é muito mais importante do que os fatos – e a intensidade de Oldman, aliada à câmera de Wright, convenhamos, causa uma bela impressão.

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