Eu, Tonya (Craig Gillespie, 2017)

Em 1994, uma patinadora americana chamada Nancy Kerrigan teve seu joelho quebrado a pauladas enquanto treinava para as Olimpíadas. O agressor, como se descobriu depois, foi um homem contratado por Jeff Gillooly e Shawn Eckhart, marido e guarda-costas, respectivamente, de outra patinadora chamada Tonya Harding. Se Tonya teve alguma coisa a ver com o crime? Bem, pergunte a ela…

No filme “Eu, Tonya“, que chega aos cinemas no dia 15 de fevereiro e concorre a 3 Oscars, uma das mulheres mais odiadas dos Estados Unidos tem a chance de mostrar a sua versão da história. Ou algo próximo disso, já que o longa se veste de uma camada grossa de sarcasmo enquanto narra a tragédia de uma mulher real transformada em personagem.

A Tonya que vemos no filme – corajosamente interpretada por Margot Robbie – é uma criatura muito mais complexa do que, simplesmente, “a mulher que conspirou contra sua rival”. Ela é uma criança jogada à pista de gelo precocemente por uma mãe empenhada em fabricar-lhe um talento, fora da escola e longe dos seus ouvidos cansados. É uma jovem agredida por essa mesma mãe, que escolhe como companheiro um homem igualmente violento, de quem não conseguirá se desprender até que seja tarde demais. Essa Tonya é uma mulher insegura, que consegue conquistar manobras impossíveis, mas não o respeito do júri. E é, também, uma pessoa tão agressiva quanto todas essas outras e tão detestável quanto a mídia se esbaldou em mostrar.

Mas não se iluda, este filme não é mais “verdadeiro” do que as notícias que ele questiona: como fica explícito pelas constantes quebras da quarta parede (quando os atores se viram para a câmera para dialogar com o público), esta é uma narrativa controlada o tempo todo pelos seus personagens, que tentam justificar seus atos diante dos olhos de uma audiência-júri. E, diante de uma verdade tão ambígua, a impressão que temos é que pouco importa quem cometeu o crime. A vida inteira de Tonya é um crime.

Faço um parênteses aqui para contar algo que ouvi assim que saí da sessão. Um jovem crítico (que não conheço) expressava ao colega a preocupação de que o filme “naturalizasse” as inúmeras violências que a protagonista sofre ao optar pelo humor. Que, se um homem assistisse a essa história e risse das agressões e injustiças, talvez ele se sentisse justificado para fazer o mesmo. Pois entendo seu ponto, mas não poderia concordar menos.

O que o diretor Craig Gillespie, Robbie e todo o elenco fazem jamais pode ser considerado humor. É um humor negro, no máximo, mas não esse humor de que falava o crítico, que nos faz sentir menos culpados por nossos pequenos deslizes… Não, este aqui é um humor pesado, que aponta o indicador para nossos erros e nos faz sentir repulsa por Tonya e sua tendência por autodestruição, por sua mãe (Allison Janney, incrível), por Jeff (Sebastian Stan), por Shawn (Paul Walter Hauser) e pelo fato de que os dois cumpriram apenas alguns meses de sentença, enquanto ela foi banida do esporte pelo resto da vida. (Sinto-me ainda mais enjoada quanto reparo na forma como Jeff expressa sua raiva pelo amigo, com quem grita e lamenta, e pela esposa, a quem aponta uma arma carregada).

Portanto, acho injusto dizer que “Eu, Tonya” transforma a feiura de sua história em algo palatável e risível. Ele a transforma, creio, em algo ainda mais horroroso e, por isso mesmo, rimos um riso nervoso. Um riso de quem entende que encontrar “vilões” e “mocinhos”, na vida real, não é tão fácil quanto fazem parecer os tabloides. E que “bem” e “mal”, “verdade” e “mentira” dependem apenas de quem está contando a história.

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