The Post: A Guerra Secreta (Steven Spielberg, 2017)

Steven Spielberg, Meryl Streep, Tom Hanks. Quando soube que o “dream team” de Hollywood estava se reunindo para realizar nossos sonhos, tive que ver para crer. É certo que eu ainda precisava fazer as pazes com Spielberg depois de “O Bom Gigante Amigo” e “A Ponte dos Espiões”, e que Hanks não vinha figurando na minha lista de favoritos há algum tempo, mas Streep? Ah, Streep não falha.

Pois estava certa quando confiei no critério da mulher mais premiada do cinema para escolher seus projetos: saí de “The Post: A Guerra Secreta” absolutamente apaixonada. Pelo filme, por sua personagem e, como há muito tempo não me via, pela minha profissão. Jornalista, isso é, diploma e tudo.

Digo “há muito tempo” porque “Spotlight” (aquele, que ganhou o Oscar em 2016 e você nem se lembra) ficou bem longe de falar minha língua. Na época, aquele filme pintou um jornalismo irreal, ideal, vendido nas faculdades e esmagado nas redações – um jornalismo com tempo de sobra para apuração, com discussão de pauta nos mínimos detalhes, com apego e sem adrenalina, caprichado e tediosamente desapaixonado.

“The Post”, por outro lado, é a vida real. Ou, a vida real de jornalistas americanos nos anos 70, quando capas de jornais ainda eram feitas com linótipos (pequenas letrinhas de chumbo) e um funcionário chamado “copy desk” ainda revisava os textos antes da impressão. A vida real de quem tem só algumas horas para cobrir alguns milhares de páginas de um documento oficial complicadíssimo, traduzindo-o em reportagens menores regadas a muito café (e limonada) para um público desconfiado.

Para quem gosta do assunto (eu sei, não é para todos), chama a atenção o cuidado com que Spielberg e os roteiristas Liz Hannah (estreante) e Josh Singer (“O Quinto Poder” e, vejam só, “Spotlight”) recriam a rotina de uma redação que, como a maioria delas, precisa cobrir com o mesmo empenho um casamento da alta sociedade, novas tendências de moda e um escândalo político de dimensões catastróficas.

O filme, vamos a ele, narra o momento em que um arquivo ultrassecreto documentando o passo-a-passo da Guerra do Vietnã, durante mais de 20 anos, é vazado para o jornal The New York Times. Enquanto o maior diário de Nova York trabalha em sua matéria de capa, o menor e mais familiar The Washington Post (o “The Post”, do título) se prepara para abrir o capital e tentar sair de uma crise financeira – negociação que precisará ser fechada por Katharine Graham (Streep), dona da empresa desde o suicídio de seu marido. Na verdade, a marca pertencera ao pai dela, mas sua geração considerara mais prudente entregar o comando a um homem (até não ter mais essa opção).

Antes de considerarmos o escândalo em si, é interessante ver como Streep expressa a insegurança de sua personagem, reduzida a “aquela que organiza as festas” e ainda pouco ou nada consciente do próprio poder. Estamos acostumados a ver a atriz proferindo discursos e preenchendo salas inteiras com sua presença, mas, aqui, ela literalmente engole as próprias palavras e encara o chão quando chega sua vez de falar.

Não que Graham não saiba, exatamente, o que pensa e o que quer dizer, mas o fato de ter passado toda a vida cercada por homens que não esperavam que ela dissesse nada (ou por conselheiros que erguiam a voz ao menor sinal de hesitação) criou uma espécie de bloqueio que ela terá que superar se quiser assumir controle sobre seu próprio jornal.

A oportunidade perfeita cai em seu colo quando o escândalo do que ficou conhecido como “papéis do Pentágono” estoura nas manchetes do concorrente. A princípio, perder o furo para o Times é o pior pesadelo do editor-chefe Ben Bradlee (Hanks), mas o jogo logo muda a seu favor, quando uma proibição e um processo legal recaem sobre o impresso nova-iorquino.

Empenhado em encontrar a fonte do vazamento e somar a voz do Post ao debate, Bradlee deve convencer Graham a autorizar a publicação do que, sem dúvida, lhes renderá um processo igual ao dos colegas censurados e pode afastar os necessários patrocinadores – mas, por outro lado, poderá restaurar a confiança dos leitores no jornal e no jornalismo como um todo.

Esse, evidentemente, não é um dilema restrito aos anos 70. O filme fala diretamente à era Trump, quando uma lista chamada “fake news awards” (o prêmio das notícias falsas) foi publicada pelo próprio presidente para desmoralizar a imprensa tradicional em pleno 2018. Mas, mais do que isso, “The Post” nos lembra que equilibrar a missão informativa às necessidades financeiras sempre será uma dor de cabeça para jornais, portais, blogs, programas de TV ou quaisquer outros veículos jornalísticos. E que, apesar da vitória em alguns casos heroicos, essa é uma guerra que ainda está longe, muito longe, de acabar.

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