A Forma da Água (Guillermo Del Toro, 2017)

Guillermo Del Toro é um verdadeiro artesão. Seus filmes nunca são apenas histórias a serem contadas – aliás, as histórias talvez sejam meras molduras para os mundos e personagens que ele imagina. Monstros e criaturas mágicas, crianças e excluídos, todos monarcas em seus reinos sonhados, ricos em cores e texturas que parecem pertencer a outro tempo.

Seu mais novo universo se constrói em torno de uma faxineira muda (Sally Hawkins), que vive em cima de uma sala de cinema e tem um ritual matinal muito particular. Seu vizinho (Richard Jenkins) é um desenhista gay solitário, que ama Hollywood e seus sapateados, de quem ela cuida e a quem recorre quando precisa de ajuda num plano arriscado. Um plano que ela elabora quando, no laboratório militar onde trabalha, surge um objeto de pesquisa muito peculiar: um homem-anfíbio, capturado para ser estudado, torturado e, muito em breve, dissecado.

Quando ela o vê pela primeira vez, o homem-sereia – como ela o descreve para o vizinho – acabara de arrancar dois dedos do desagradável chefe de segurança (Michael Shannon), diante do qual ela quase rira, satisfeita e nem um pouco enojada. Logo, Elisa (esse é seu nome) começa a alimentá-lo secretamente com ovos cozidos e música, e lhe ensina uma ou outra palavra na língua de sinais.

Se Elisa conseguirá fugir com a criatura e despejá-la em segurança nos canais que levam ao mar, isso nem parece tão importante diante da tristeza que ela sentirá ao fazê-lo. Afinal, por alguns momentos ela se vira completa – não uma pessoa que não pode falar, não uma faxineira, mas uma mulher amada e desejada, detendo nas mãos um poder inédito.

Talvez seja por isso que o anfíbio nem tenha tanto tempo de tela quanto se poderia esperar. É a evolução dela que vemos, de alguém invisível para a pessoa mais procurada, de alguém solitária para uma mulher banhada num amor que não tem forma (nem cor, nem gênero, nem regras) e que a abraça como água. Daí o título, como a legenda num quadro que só se completa com seu nome.

A Forma da Água” soma 13 indicações ao Oscar 2018 e, às vésperas da premiação, acumula também uma complicada acusação de plágio – de uma peça de 50 anos atrás. O estúdio alega que Del Toro nunca assistiu à peça e se diz aberto a discutir a questão com a família envolvida. Enquanto o problema não é oficialmente solucionado (as duas partes podem entrar num acordo de direitos autorais, ou simplesmente concordar que não houve influência nenhuma), tudo o que podemos fazer é analisar o filme pelo que ele é: uma extravagante fábula romântica movida por uma aventura ingênua, mas pontuada por cenas de parar o coração.

Tire suas conclusões quando o filme chegar aos cinemas no dia 1º de fevereiro.

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