Pantera Negra (Ryan Coogler, 2018)

Em algum momento do último mês, eu disse a um amigo que “Pantera Negra” seria a “Mulher Maravilha” deste ano. Não esperava tanto, mas queria que fosse, e agora posso dizer que é mesmo. É isso e até um pouco mais.

Em 2017, “Mulher Maravilha” mostrou a meninas e mulheres que ser mulher não era sinônimo de ser frágil e que, pelo menos uma vez para variar, nós poderíamos ser a pessoa que salta na frente da outra para protegê-la, e não o contrário. “Mulher Maravilha” incluiu metade do mundo na brincadeira dos super-heróis e deixou o jogo mais equilibrado, mesmo que, no final das contas, não tenha mudado completamente as regras. O Mal, com “m” maiúsculo, ainda era o inimigo a ser vencido no fim do dia – e ele estava longe o suficiente para não precisarmos nos preocupar.

Em 2018, “Pantera Negra” chega para fazer o mesmo com a pele negra: trazer orgulho, admiração e força. Mas ele também insere seus personagens no mundo atual, ao invés de um passado distante, e posiciona-se abertamente diante de questões políticas como “Trump”, “Brexit”, refugiados e a responsabilidade de cada nação (ou cada indivíduo) com o resto da humanidade.

Wakanda e a África invisível

Antes de pensar na ideologia do filme, preciso ter certeza de que vocês entenderam o tamanho do cuidado e da habilidade com que Ryan Coogler e sua equipe traduziram nas telas o país de Wakanda, seus personagens e seus mitos. Sim, os quadrinhos já apresentaram o herói a uma legião de fãs, mas creio que essa é a primeira vez que um personagem africano alcança um público tão vasto de uma só vez, e a responsabilidade não era pequena.

A escolha de um cineasta negro com experiência em dramas ao mesmo tempo pessoais e sociais (Coogler escreveu e dirigiu “Fruitvale Station” e “Creed”, ambos estrelados por Michael B. Jordan, que repete a parceria aqui) acabou se mostrando a melhor cartada para a Marvel, que vinha precisando de algo que fugisse ao humor dos Vingadores e dos Guardiões da Galáxia, mas que mantivesse o apelo da ação e da fantasia. Além disso, ela já saíra atrasada na corrida das heroínas e precisava mostrar, mais do que nunca, que estava empenhada em ampliar a representatividade em seus filmes.

Coogler, ao que parece, não se intimidou pelas pressões do “padrão Marvel” e puxou o freio antes de encaixar seus personagens no universo pré-existente. “Pantera”, como um respiro entre “Guerra Civil” e “Guerra Infinita”, apresenta o contexto de T’Challa com paciência, demorando-se em seus rituais, na intimidade entre amigos, parentes e rivais, na narração de suas tradições e na complexa arquitetura de um lugar marcado por uma tecnologia de ficção científica, pela natureza exuberante e pela colorida e musical cultura africana que permeia cada objeto.

Não é à toa que o personagem de Michael B. Jordan, logo no início, é mostrado observando antigas máscaras de guerra de povos africanos: esse é o imaginário que Coogler quer evocar, e é sobre o nosso desdém diante desses povos “selvagens” e “primitivos” que ele quer discutir. Mas essa não é uma reflexão acomodada sobre velhas cicatrizes da História, e sim uma conversa oportuna e atual sobre um problema que persiste: o de um continente inteiro e seus herdeiros que ainda são excluídos do mundo moderno por preconceito e portas fechadas.

Assim, ao propor uma civilização tecnologicamente avançada dentro de um continente devassado por colonizadores – como um El Dorado na Amazônia ou uma cidade asteca na América Central, se qualquer uma delas pudesse existir nos dias atuais – “Pantera Negra” faz duas coisas essenciais: lembra ao resto do mundo que as nossas diferenças foram forjadas por recursos (minerais, dinheiro, armas) e dá aos negros, africanos ou não, uma imagem incrível na qual se projetar. E, para quem acha que isso é pouco, vejam só o que uma única heroína fez com a autoestima das mulheres (e com o respeito a elas) em apenas um ano.

Reis, rainhas e guerreiras

Se Wakanda é um personagem em si, seus habitantes são verdadeiras pérolas num mar de mesmices. É claro que, com um elenco que inclui Lupita Nyong’O, Danai Gurira, Michael B. Jordan, Daniel Kaluuya, Angela Basset, Andy Serkis, Martin Freeman, Forest Whitaker e uma simpatissíssima e ainda desconhecida (por mim) Letitia Wright, só observar as interações entre os atores já vale cada centavo do ingresso. Mas já cansamos de ver grandes produções com elencos inflados que não justificaram o hype, não é mesmo? Então, fico aliviada em ver que este não é o caso. Nem um pouco.

(Note que não incluí o nome de Chadwick Boseman na mistura – ele, que é o Pantera Negra em pessoa, é o mais fraco em atuação ou carisma, mas a direção é competente o suficiente para não deixar que isso interfira no conjunto.)

Praticamente todo o elenco, aqui, é negro e seus personagens são naturais de Wakanda. Em parte, isso acontece porque a história se fecha no país escondido, preocupando-se mais em mostrar suas disputas internas e conflitos mal resolvidos do que em colocá-la numa guerra maior. Porém, a outra parte é totalmente proposital, é claro: quando foi a última vez que você assistiu a um filme de grande orçamento com elenco majoritariamente negro? Isso é um manifesto.

Entre os novos personagens, talvez as maiores expectativas estivessem sobre a misteriosa Nakia, vivida por Lupita (afinal, todos amamos Lupita!). Ela é uma espiã de Wakanda que se infiltra em outras comunidades africanas para corrigir injustiças, salvar grupos sequestrados e coisas afins. Ela é uma “humanitária” à moda dos quadrinhos: alguém engajada em causas sociais, mas com habilidades de luta e tecnologias impossíveis à sua disposição.

O que me agrada nela é que, muito mais do que “o interesse romântico do herói”, sua própria existência funciona como um “guia moral” para o público e para o filme, que é desafiado com um dilema sobre a abertura ou não de Wakanda para o mundo exterior. O que ela simboliza é a existência de uma responsabilidade, sim, ou de uma consciência, pelo menos, que precisa ser colocada na balança junto com o instinto de sobrevivência da comunidade.

Que é onde entra a general Okoye, papel de Danai Gurira (“The Walking Dead”). Líder do exército do reino de Wakanda (um exército feminino, diga-se de passagem), ela é aquela que se preocupa em preservar tradições e hierarquias como forma de proteger seu país, acreditando nas leis mais do que em pequenos atos rebeldes de justiça. Ela não é, porém, um soldado cego e obediente, mas tem convicções e conflitos morais próprios que, mesmo subentendidos, lhe dão uma profundidade a mais.

Outro nome que vai cativar o público é Shuri, interpretada por Letitia Wright – irmã-prodígio de T’Challa e uma espécie de Tony Stark local. Totalmente improvável em seu conjunto de habilidades (ela é um gênio da computação, da engenharia e da medicina, ao mesmo tempo), Shuri é dona de uma personalidade jovial e independente, servindo ao público como ponte entre o mundo tradicional de Wakanda e o mundo ocidental contemporâneo.

Como ela, quem também “amarra” os dois universos é o interessante personagem de Michael B. Jordan, que leva até o reino africano um pouco da cultura negra americana, colocando as duas sutilmente em choque. Esse contraste é interessante para dizer ao público que, apesar da nacionalidade, cultura e identidade são coisas construídas, também, pelo lugar onde se vive. Somos mais complexos do que nossos passaportes.

Um filme político

O que me leva, enfim, à constatação de que este é o filme mais político da Marvel até agora. Não que isso seja muito surpreendente – é típico da Walt Disney, como qualquer gigante que tem muito a perder, assumir uma posição depois que todos os outros estúdios o fizeram, e esse é o caso agora. Falar em união, em apoio entre nações ou na diluição de fronteiras é o que fizeram 9 em cada 10 filmes em 2017, incluindo vários dos candidatos ao Oscar. Mesmo assim, é significativo que isso esteja acontecendo entre os super-heróis.

“Pantera Negra”, ciente de sua influência, aborda não apenas o tema dos “muros”, físicos e ideológicos, como também fala de tradição, de respeito, de família e, o que é mais valioso, de diálogos (mesmo que interrompidos, inevitavelmente, por socos, chutes e golpes de espada). Preste atenção nisso, pois o diálogo parece ser o caminho que o novo Rei de Wakanda escolhe para governar.

Um filme da Disney

Sobre todos esses elementos, enfim, paira um guarda-chuva com orelhas redondas chamado “Walt Disney”. O que não é, neste caso, ruim, porque penso em Disney quando vejo mundos fantásticos e mágicos onde qualquer criança ou adulto gostaria de viver. Que é o caso de Wakanda.

“Pantera Negra” é, facilmente, um dos filmes mais lindos que o estúdio já concebeu, especialmente sob o selo “Marvel”. Não que ele seja colorido como “Guardiões da Galáxia” (o que ele é, quando convém), ou psicodélico como “Doutor Estranho”, mas ele é um mosaico de ambientes que transbordam cultura, História e imaginação. Num momento, estamos vendo uma perseguição de carros na Coreia do Sul; em outro, observamos crianças jogando basquete na periferia americana. Em Wakanda, podemos nos distrair no laboratório high-tech decorado com grafites tribais ou admirar a ligeira confusão que é o mercado, ou vibrar com uma luta de panteras brilhantes sobre um trilho de trem, num subsolo escuro.

Mas, acima de tudo, chamo a atenção ao figurino. Os atores abraçaram o universo africano até mesmo em tapetes vermelhos (veja fotos aqui), mas, numa tela IMAX, aquela mistura de tecidos, cores, padrões, formas incomuns, cabeças raspadas e cabelos em dreads é quase como ver “Matrix” pela primeira vez. Vai mudar sua vida.

E torço para que mude, muito mais, a vida de quem se vê representado ali.

“Pantera Negra” chega aos cinemas no dia 15 de fevereiro e os ingressos já estão à venda.

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