Lady Bird – A Hora de Voar (Greta Gerwig, 2017)

Todos os anos, pelo menos um dos indicados ao Oscar de Melhor Filme causa discórdia entre os apostadores, que o acusam de ter “tirado a vaga” de outros títulos melhores e “não ser digno” da honraria. Este ano, o alvo das pedras é “Lady Bird – A Hora de Voar”.

O filme de estreia da atriz e roteirista Greta Gerwig na direção já vinha acumulando haters antes mesmo da indicação, quando foi anunciado que ele havia quebrado o recorde no site Rotten Tomatoes de maior número de críticas positivas consecutivas. Vejam bem: ninguém disse que esse filme era melhor do que, digamos, “O Poderoso Chefão”, mas apenas que ninguém tinha achado que ele merecia uma nota baixa – o que são duas coisas bem diferentes.

Problemas de interpretação à parte, o fato é que “Lady Bird” é uma excelente estreia para Greta, que aplica aqui tudo o que aprendeu e desenvolveu em seus trabalhos anteriores (“Frances Ha” e “Mistress America” em particular, mas também “O Plano de Maggie” e “Mulheres do Século 20”). Independente de ser ou não criadora das personagens, ela sempre conseguiu colocar algo de si em cena e, ao longo dos anos, foi se tornando quase uma caricatura da mulher empreendedora contemporânea: a jovem que cresceu nutrindo altas expectativas sobre a vida adulta, mas, quando chegou lá, descobriu que não existia o caminho definido que lhe prometeram, e que caberia a ela inventá-lo, aos trancos e barrancos.

Greta Gerwig estreia na direção e já concorre ao Oscar na categoria

Em “Lady Bird”, a diretora dá dois passos atrás para enxergar mais longe e, talvez, fechar um ciclo: ela abre mão da atuação e retorna à adolescência, como se pudesse, com isso, compreender como se formou aquela persona hipnótica de vinte-e-tantos, trinta-e-poucos anos, tão segura e absolutamente perdida em suas decisões. Quem assume o protagonismo é a atriz-prodígio Saoirse Ronan, que, aos 23, já soma três indicações ao Oscar, incluindo esta. Ironicamente, aquela que seria a encarnação do sonho e das frustrações das personagens de Greta acaba se revelando a pessoa perfeita para o papel.

Saoirse interpreta Christine, ou Lady Bird, como prefere ser chamada. Adolescente rebelde, ela chega a assinar com o nome alternativo que escolheu apenas para provar a si mesma que sua vida não é determinada pelos pais. O que ela mais quer, afinal, é ser artista, e isso implica em deixar para trás o cenário de sua infância na cidadezinha de Sacramento e migrar para Nova York. Isso, se for aprovada em alguma das universidades de lá.

Saoirse Ronan e Laurie Metcalf interpretam mãe e filha em constante atrito na cidadezinha de Sacramento

Acontece que Lady Bird não é uma aluna exemplar e sua criatividade nunca foi canalizada para nenhum projeto em particular – ela até se inscreve na turma de teatro, mas abandona o curso no caminho, mais interessada em garotos e amigas populares do que na arte em si. E é essa incongruência entre o que a personagem sonha em ser (uma artista moderna e bem sucedida) e o que ela é, no momento (uma adolescente irresponsável e preguiçosa) que a torna tão real, aos olhos de meninas e mulheres que vão reconhecer nela seus últimos anos de colégio, e vão rir com suas desventuras ingênuas e seus dramas banais.

Mas há, sim, algo de universal nessa história feita tão sob medida para o público feminino. Christine se esforça tanto para provar que é independente, enquanto ainda vive sob as asas dos pais, que só vai compreender o quanto depende deles quando estiver bem longe, como qualquer jovem que está começando a sair do ninho. E será ali, sozinha, com um frio na barriga e uma ressaca insuportável, que ela vai entender que independência é algo que se constrói com experiência de vida, e não com uma assinatura num pedaço de papel.

“Lady Bird” está em cartaz nos cinemas e concorre a 5 Oscars: Melhor Filme, Melhor Direção (Greta Gerwig), Melhor Atriz (Saoirse Ronan), Melhor Atriz Coadjuvante (Laurie Metcalf), Melhor Roteiro (Greta Gerwig).

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