Acabou a luz

Alguma coisa acontece com este quinto andar que, toda vez que dá uma chuva um pouco mais robusta, tenho absoluta certeza de que o prédio vai cair ou que, pelo menos, todas as janelas vão se espatifar. Elas nunca se espatifaram e, felizmente, o prédio continua exatamente no mesmo lugar, mas, no último sábado, a água e o vento estouraram um transformador.

Era algo entre nove e dez horas da manhã quando o temporal começou e ainda oscilávamos entre os mesmos dois números quando ele acabou. No começo tinha luz e, no fim, não.

Demorou um pouco para que eu entendesse a situação, já que era de manhã e eu não estava, conscientemente, usando nada que precisasse de energia. Mas o dia era paciente e foi me mostrando, aos poucos, por que eu deveria me preocupar. Primeiro foi o videogame. Meu marido tinha acabado de voltar de viagem e tínhamos nos programado solenemente para passar o sábado na frente da televisão, controle na mão e pipoca no colo. Risca essa, vamos ter que pensar em outra coisa.

Depois teve a feira e o banho da Cacau. Sábado é sábado, afinal, e lá fomos nós deixar a peluda no pet shop enquanto comprávamos abacaxi, uva, mexerica, rúcula, alface, manjericão. O resto ainda tinha em casa – mas não por muito tempo, se a luz não voltasse. Xi… Na volta, a realidade de subir seis andares (cinco mais a garagem) de escada, no escuro, começou a incomodar. Mais tarde, tive que sair de novo e, ao chegar ao carro, notei que tinha esquecido um saco cheio de coisas que prometera levar à minha mãe… Sinto muito, mamãe. O saco vai ficar lá.

Escada vai, escada vem, eventualmente o sol começou a se pôr. E a gente tinha combinado de sair. E o banho de caneca foi se materializando em nossas mentes como uma realidade cada vez mais inadiável. Da janela, nada indicava que a solução fosse acontecer nos próximos 60 minutos, ou mais. Pode ferver a água, então.

A essa altura, o apartamento já tinha se transformado no cenário de um filme gótico, com velas espalhadas por quase todos os cômodos e uma lanterna curiosa onde se lia “The Conjuring 2” na lateral. Sugestiva, mas muito útil. Comecei a pensar que ficar sem luz de vez em quando talvez não fosse assim tão ruim, desde que as velas nunca acabassem e a geladeira pudesse continuar ligada – mas isso, infelizmente, não era uma opção.

Então me voltei às memórias de banhos de caneca, tão frequentes nos sítios da infância, que envolviam invariavelmente frio, bagunça, confusão e a sensação constante de que ainda havia sabão em muitos lugares do corpo. Então, qual não foi minha surpresa quando descobri que, com a ajuda de uma segunda pessoa segurando a caneca sobre a sua cabeça (e com o bônus de algumas décadas a mais de experiência em banhos), o processo não era nem de perto tão complicado assim! Excelência em banhos quentinhos e econômicos à luz de velas? Check! Cabelos milagrosamente lavados e arrumados na escuridão? Check! Um novo mundo se iluminava e eu quase não me importava mais com o conserto do transformador…

Quase. Acordei na manhã seguinte com o apito do timer do fogão e fui correndo ligar o videogame.

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