Crônica de quatro patas

Ela se enrola toda como um caracol e relaxa, empurrando de leve minha coxa e suspirando fundo antes de fechar os olhos. Passo os dedos por pelos longos e castanhos e, feito mágica, já me sinto melhor. É infalível. Brinco então com as orelhas, sempre despenteadas, e arrumo uma delas que tinha se virado ao contrário. É só eu me distrair um segundo que elas dão um jeito de virar ao contrário. Continuo o carinho enquanto encaro a tela em branco, ameaço escrever alguma coisa e sinto-a se remexer. Agora, exibe a barriga branca para que eu prossiga com o coça-coça, mas mantém a cabeça mais ou menos na mesma posição, retorcendo todo o corpinho peludo como se estivesse muito confortável. As patinhas estão dobradas, mais ou menos soltas no ar. A cena é ridícula e, ao mesmo tempo, deliciosa. Quero tirar uma foto.

Tateio pelo braço do sofá e puxo o celular com uma mão, enquanto continuo a alisar os pelos com a outra. Aciono vários aplicativos com o destreinado dedão esquerdo e finalmente encontro a câmera, triunfante, mas a satisfação dura pouco. Ela sabe. Abre um olho indignado e mira no objeto non-grato sua pata mais próxima. Quase acerta. Não desisto. Invisto em outro carinho, falo com voz de bebê e tento fazê-la olhar de volta, fingindo desinteresse no aparelhinho retangular, mas a quem estou enganando? A ela, certamente não. Ultrajada, minha companheira coloca-se sobre as quatro patas, dá uma chacoalhada e vai embora. A tela em branco me olha, sarcástica e inadiável.

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