Nada se cria

Quanto mais eu olho para a cultura, mais certeza tenho de que vivemos num looping, correndo atrás de nossas próprias caudas com o desespero de um cão faminto… “Nada se cria”, já dizia Lavoisier, e tenho cada vez mais certeza de que tudo se copia. Inclusive a si mesmo.

Saiu ontem o trailer completo de “WiFi Ralph”, sequência da animação “Detona Ralph” que deve chegar aos cinemas no início de 2019. Quem viu o primeiro filme já sabe que ele brincava com a nostalgia de quem cresceu jogando videogames, dos fliperamas aos jogos online, passando pela tarde de domingo na casa dos amigos. O longa trazia uma aventura inédita, com dois personagens marcantes e todas as mensagens positivas que esperamos de uma história infantil, mas sejamos honestos: ele só foi um sucesso por conta de todas as referências e easter eggs que prometeu. Por tudo aquilo que o público já conhecia antes de entrar no cinema. É como se as pessoas apenas aceitassem conhecer algo novo pela mediação de algo velho… Mais ou menos como escolhemos novos amigos.

Agora, um segundo filme vem aí – o que, por si só, já é um conforto. A certeza de que a experiência vai ser agradavelmente familiar. Em cima disso, o filme agora promete reunir todas as marcas gerenciadas pela Walt Disney numa única e gigantesca fantasia, meio-conhecida, meio-inédita, com ênfase no primeiro. Veremos Marvel, Star Wars, Pixar, princesas, todos interagindo com os agora canônicos Ralph e Vanellope, como uma grande e impossível vizinhança onde todas as ruas se chamam déja-vu.

E por que não? Ora, por nada. Será divertidíssimo. Mas me faz pensar que “saber o que esperar”, nestes tempos tão instáveis, tem se tornado o elemento mais valioso para quem precisa escolher entre dezenas de opções toda semana e quer mais é relaxar (com razão). Foram-se os tempos em que se ia ao cinema para desbravar novos mundos, conhecer boas histórias ou ter assunto para o jantar. “WiFi Ralph”, não me entenda mal, pode muito bem ter uma boa história, mas não é isso que vai atrair suas multidões. Não é nem mesmo o pobre Ralph.

No fundo, o que vai tornar esse filme tão irresistível será a chance de ver, na tela grande, nossa própria história ressignificada, com tudo o que marcou nossa infância cuidadosamente harmonizado com novas e mais modernas memórias. Assim, em doses seguras e homeopáticas, quem sabe não fica um pouco mais fácil crescer.

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