14 anos depois, eles ainda são Incríveis

Vamos falar de perspectiva? Em 2004, a Pixar lançou nos cinemas um filme chamado “Os Incríveis”. Era uma animação diferente, que agradou tanto aos pais quanto aos filhos num tempo em que desenhos animados eram coisa de criança – e os adultos odiavam ter que acompanhá-las. É, o mundo já foi assim e você nem se lembrava.

Em 2004, a Pixar nem era parte da Walt Disney. Apesar de as duas empresas terem colaborado antes, foi só em 2006 que o contrato final foi assinado e a Pixar passou a responder à senhora-toda-poderosa dona de todos os mundos. Mas essa, para mim, nem é a data mais importante: não tanto quanto o fato de que “Homem de Ferro”, o primeiro filme do Universo Cinematográfico Marvel que, no mês passado, estreou seu 19º longa-metragem cuidadosamente amarrado a todos os outros 18 e recebido com mais de dois bilhões de dólares em bilheterias, foi lançado em 2008. Quatro anos depois de “Os Incríveis”.

Trago esses dados para dizer que, em 2004, super-heróis não eram muito comuns nas telas de cinema. Os filmes da franquia “X-Men” tinham até feito algum sucesso e é claro que todo mundo amava o Batman, mas esse sempre tinha sido um nicho restrito a crianças, adolescentes e nerds – o último sendo quase um palavrão. “The Big Bang Theory”, vejam bem, só estrearia em 2007.

Então voltamos a 2004 e a essa animação tão sutilmente subversiva que, no próximo dia 28 de junho, ganha sua primeira sequência depois de 14 anos. De lá para cá, o mundo mudou e as expectativas, também. Como estará a família Pêra? Que tipo de desafios eles terão que enfrentar para continuarem relevantes entre tantos heróis?

Pois bem: digo que o filme já começa acertando em cheio. Ele parte exatamente de onde parou o “clássico”, de forma que nem sentimos o tempo passado e a nostalgia toma conta. Mesmo assim, nestes tempos de nostalgia desmedida é preciso dizer que “Os Incríveis 2” não se apoia no primeiro para respirar. Pelo contrário, ele tem sua própria narrativa e seus personagens não ficam se voltando ao passado para lembrar aos fãs que eles já se viram antes. Graças a deus e a Brad Bird.

No final do primeiro filme, os cinco Incríveis se viram lutando contra um vilão-toupeira que perfurava o asfalto no estacionamento do colégio de Flecha e Violeta. Aqui, vemos que a missão não saiu tão bem assim e, apesar de terem conseguido deter a máquina, o inimigo escapou e a cidade ficou destroçada.

Depois do incidente, os heróis voltam a ser mal vistos pelo governo e, já sem sustento, Helena e Beto conversam sobre a necessidade de voltar ao “mundo real” – ou seja, ao mundo em que combater o crime não é um trabalho e um dos dois precisará para pagar as contas. Aí, já temos uma prévia do que acontecerá depois.

É verdade que o segundo filme reserva bem menos surpresas do que o primeiro (você vai saber a identidade do vilão assim que ele aparecer), mas ele compensa a previsibilidade com um detalhamento precioso do dia-a-dia dos protagonistas. De um lado, temos a rotina de combate ao crime, já que Helena vai “trabalhar” numa missão patrocinada para recuperar os direitos dos heróis e passa alguns dias hospedada em outra cidade. Do outro, temos as desventuras de Beto, sozinho em casa com três crianças – incluindo um bebê com uma infinidade de poderes descontrolados.

Zezé, aliás, é uma das melhores surpresas do novo filme. Apresentado no primeiro apenas brevemente, aqui ele ganha uma personalidade sapeca e seus poderes são explorados em toda a sua inesgotável extensão. Espere pelas cenas de Zezé com um guaxinim e de Zezé com Edna Mode: vão valer, sozinhas, toda a sua pipoca e o ingresso do cinema.

Bebês perigosos à parte, é difícil determinar se qualquer um dos personagens “rouba a cena” dos outros quatro, o que já era um ponto forte no longa anterior. Flecha, talvez, seja o menos aproveitado nesta aventura, mas a instabilidade adolescente de Violeta, a empolgação e cuidado com que Helena encara o novo desafio e a inveja reprimida de Beto, somada à sua determinação em cumprir com louvor a tarefa de “bom pai” já fazem, por si só, uma obra mais completa, mais sincera e mais engraçada do que a esmagadora maioria.

Valeu a pena esperar.

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