Pão e Circo

Toda Copa do Mundo é o mesmo drama: para cada dois ou três torcedores fanáticos, existe um protestando contra o “pão e circo” que é esse espetáculo midiático. Uma maquinação diabólica para que o povo, entretido, não perceba as opressões que se colocam sobre ele nesses e em todos os outros dias do ano.

Ora, façam-me o favor. Eu não gosto muito de futebol e acho que tem muitas coisas erradas com a Copa, mas isso não é uma delas. Sejamos realistas. Primeiro, é natural que um povo acostumado à corrupção perca interesse pela política e vá tentar viver sua vida com o que lhe faz bem – como fazer um churrasco entre amigos ou vibrar por um gol de bicicleta, e melhor ainda se for tudo ao mesmo tempo.

Segundo, é bom lembrar que o “pão e circo” original era, na verdade, um sacrifício de gladiadores em arena pública que funcionava muito mais como um expurgo da agressividade reprimida do que como distração. Pensando assim, talvez um jornal sensacionalista espirrando sangue todos os dias às quatro da tarde faça muito melhor essa função, vocês não acham? Tendo a pensar que sim.

“Mas o futebol também é agressivo”, vocês vão dizer, e é mesmo. Vocês já viram torcidas organizadas? Elas são violentíssimas, mas costumam ficar silenciadas durante a Copa do Mundo. Aliás, há poucos eventos esportivos mais pacíficos do que a Copa, cuja campanha pela interação entre nações sempre foi o ponto forte. Os países-sede, é verdade, podem tomar medidas questionáveis para passar uma boa impressão, mas quase sempre estão mais preocupados com o turismo do que com o evento em si. Então… Pão e circo? Mesmo?

Cultura não é trabalho, não é direito, não é capa de jornal: é distração. É “circo” – um tipo de arte, aliás, que se tornou um insulto.

Talvez seja encanação minha, mas tenho pensado que essa obsessão por demonizar a “indústria alienadora do entretenimento” tem mais a ver com um desprezo pelo que se entende por entretenimento do que com uma preocupação com o bem-estar do país. Porque é inaceitável, evidentemente, que algo tão desimportante quanto uma Copa do Mundo – um evento cultural, tanto quanto esportivo – tome o espaço da política ou de qualquer outro tema “essencial” durante algumas semanas, a cada quatro anos… Porque, para o nosso mundo (brasileiro, digo), cultura não é assunto sério. Cultura, pense bem, é tudo aquilo que se faz como “hobbie”, quando se tem “tempo livre” ou se é “alienado”. Cultura não é trabalho, não é direito, não é capa de jornal: é distração. É “circo” – um tipo de arte, aliás, que se tornou um insulto.

Tenho certeza de que os atletas que estão competindo na Rússia, ou os artistas que estrelam novelas da Globo, ou os escritores que vendem milhões de cópias ou se tornam celebridades no Instagram não consideram seu trabalho um “entretenimento vazio”, um “passatempo”, uma “bobagem”. Eles provavelmente treinaram muito para isso e veem, ali, a realização mais alta da sua carreira, a recompensa por seu esforço e o orgulho de poder expor seu trabalho para todo o mundo. Por pior que seja.

Então, se você quiser ver esse espetáculo, veja. Eles precisam disso. E, se você quiser protestar, porque há motivos de sobra para protestar, proteste. O mundo também precisa disso. Mas, por favor, deixe que a cultura ocupe os holofotes só para variar, porque alguns de nós simplesmente não vivem sem pão nem circo.

 

Foto: reprodução/Fifa.com

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