(Des)aprendendo a escrever

Escrevo desde criancinha e nunca dei muita bola pra isso. Simplesmente inventava histórias para as minhas bonecas, para os personagens que eu gostava da televisão, ou criava minhas próprias heroínas estranhas e as colocava no papel – fosse em forma de quadrinhos, anotações nos cantos dos desenhos ou, certa vez, num calhamaço de papel escrito à mão, com capa e tudo como num livro de verdade.

Talvez por isso, passei os quatro anos e meio da faculdade de Jornalismo pensando que deveria ter feito Letras. Não fiz e passei outros sete trabalhando na área, mergulhada até a cabeça mas com um pé sequinho, mantido teimosamente do lado de fora. Assim, lembrava-me sempre de quem poderia ter sido e, revestida de minha carapaça estrangeira, observava tudo como quem olha de fora. “O problema são eles, não eu. Eu não pertenço aqui”.

Um dia, resolvi sair da água. Como todo aspirante a escritor, procurei um curso de Escrita Criativa e me matriculei, deixando de lado, temporariamente, todas as pautas, notas e releases e dando as boas-vindas a um caderno novinho e um lápis bem apontado. Não preciso dizer que só usei o caderno na primeira aula e, depois de três meses, fiz completamente as pazes com minha escolha universitária.

Sim, o curso era bom (a maior parte dele) e, no começo, até me animei. Escrevi coisas que normalmente não escreveria e descobri alguns pontos em que preciso trabalhar (alô, personagens!), mas, com o passar das aulas, aprendi mais sobre as pessoas que escrevem do que sobre a escrita em si. Aprendi sobre as intenções, as manias, as inspirações, sobre os vícios e sobre os métodos, que nunca são os mesmos. Aprendi que não há regra, mesmo que possa haver recursos e, com alguma dor de cabeça, aprendi que dois escritores dificilmente cabem numa mesa.

Aprendi, enfim, um pouco mais sobre mim: entendi quais eram as partes que gritavam jornalismo e quais faziam poesia, e decidi que gosto demais das primeiras para deixá-las na mão. Tampouco vou largar as segundas, então resolvi fechar os olhos: vou saltar na água de corpo inteiro. Deixe que as duas coisas se misturem, mesmo que isso signifique não pertencer nem a um lado, nem ao outro. Já não pertencia antes e, pensando bem, duvido que qualquer um de nós pertença de verdade…

Serei escritora, afinal? Não sei, nem me importa mais. Escreverei, isso é certo. E isso deve bastar.

 

Foto: Gabriel Almeida

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