Livros pela metade

Preciso confessar uma coisa: já deixei muitos livros pela metade. Fui uma leitora exemplar quando criança, do tipo que, mesmo se a história não animava, dava um jeito de chegar até o fim – e chegava rápido. Mas a coisa começou a desandar com “Crime e Castigo”. Uma vergonha, eu sei. Fui lendo, fui lendo, até que chegou uma página divisória escrito “Parte 2” e foi a minha deixa. Nunca mais voltei.

Não sei se é a ânsia por ler mais livros ou a sensação de que não estou realmente aproveitando aquele, mas me bate um desespero ao ver a lista travada por conta de um único romance que não fluiu. Os outros volumes me olham de cara  feia e dou total razão a eles. “Minha vez!”, eles dizem. “Deixa esse molenga aí!”. Então deito na cama e respiro fundo antes de retomar aquele capítulo enrolado, mas logo me vejo no celular rindo de qualquer vídeo de cachorrinhos. Por aqui são cachorros, não gatos. Eventualmente, é claro, desisto. Lá se vai o livro de volta à prateleira com o marcador de página ainda enfiado, denunciando minha impaciência e meu status de “mau leitor”.

Desta vez, foi com “Deuses Americanos”. Ainda não tinha lido nada de Neil Gaiman, mas vira um discurso dele que me fizera ter certeza de que era um grande autor. Ele pensava como eu, tinha a energia de um artista, tinha até um jeito de Tim Burton mais comportado, mas aí… Página vai, página vem e aquele protagonista passivo começou a incomodar. Assim como as centenas de pessoas e carros e moedas que ele encontrava pelo caminho, que não faziam mais do que esperar por uma guerra que nunca vinha, quase como o inverno de Game of Thrones – mas sem as intrigas do palácio, os massacres e tudo o mais.

Desisti dele ontem à noite. Não estava chato, exatamente, mas nada nas trezentas e quarenta e oito páginas que li me deixou curiosa – e ainda tinham outras duzentas pela frente. E olha que era um livro sobre deuses vivendo entre nós! Enfim, desisti. Por hora. Agora, vem aquele período delicioso de escolher um novo companheiro de cabeceira para os próximos dias (ou semanas). Talvez retome “Um Estranho Numa Terra Estranha” ou “Contos de Terramar”, ou crie coragem para ler essa edição bonitona de Hamlet que está exposta aqui na minha prateleira… Ou talvez encontre outra coisa totalmente diferente durante um passeio na livraria. Vai saber. Todas as possibilidades estão à minha frente… A questão é: será que vou terminar?

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