Westworld, 2ª temporada: considerações

Tive dificuldade para dormir ontem à noite. Por mais que tentasse, não conseguia desviar os pensamentos do final da segunda temporada de “Westworld”, que foi ao ar neste domingo na HBO após uma sequência de episódios propositalmente confusos e enlouquecedores. É só uma série, eu sei, mas havia muito o que pensar – inclusive sobre o mundo do lado de fora da ficção.

A temporada começou esquisita, admito. Depois de brincar com diferentes linhas de tempo na fase anterior, os criadores Jonathan Nolan e Lisa Joy decidiram repetir o recurso, agora sabendo que os fãs não seriam surpreendidos. Mesmo assim, não foi fácil decifrar a ordem das quatro ou cinco narrativas paralelas que se desenvolveram ao longo dos dez episódios e, mesmo com algumas explicações, muita coisa continuou no escuro – como aquela conversa final entre Dolores e Bernard (com uma participação especial de explodir a cabeça). Quando ela se passa? E a cena pós-créditos? “Quando” é a pergunta que queremos fazer a tudo o que acontece nesta série.

Depois da madrugada agitada, fui pesquisar teorias sobre a season finale, só para perceber que eu não queria realmente saber o que ela significava. Ou melhor, não queria saber as intenções, mas apenas o que estava ali na tela. Afinal, essa recusa em entregar respostas antes da hora é um dos motivos pelos quais eu ainda assisto à série, que tem mais a dizer com o processo de construção de seu quebra-cabeças do que com a figura completa. Porque é nas memórias fragmentadas que se constrói a consciência de seus personagens artificiais e isso me parece um tema muito mais importante para a obra do que a guerra entre humanos e robôs.

É nas memórias fragmentadas que se constrói a consciência de seus personagens artificiais.

É claro que a guerra está lá e, apesar do banho de sangue que encharca especialmente os primeiros episódios, a verdade é que ela se encaminha para uma guerra virtual, liderada por Dolores e pela Delos, cujas armas decisivas serão os dados e não a força. Mas quais dados? De um lado, aqueles usados na programação dos anfitriões e que garantiram seus eternos reboots (sua “imortalidade”) e sua obediência por décadas. Do outro, aqueles dos visitantes, coletados sem o seu consentimento durante a vivência no parque e cuja função tem a ver com a criação de réplicas artificiais, que funcionariam como uma extensão da vida e poderiam, é claro, ser vendidos como ouro para os próprios usuários. Mais provável, porém, seria o uso para fins militares ou publicitários, que é exatamente o que vem acontecendo no mundo real com grandes empresas de mídia como o Facebook.

(Faço um parênteses aqui para notar que esse segundo banco de dados é apresentado como uma biblioteca, onde cada pessoa é um livro contendo anotações na mesma forma gráfica da música tocada na abertura. Uma sugestão, talvez, de que a humanidade tem uma aparência mágica, mas pode ser reduzida a um conjunto simples de notas.)

Mas não é só Dolores que domina a temporada e, enquanto ela organiza sua guerra, Maeve, William, Bernard e, quem diria, Akecheta (um índio que aparecera apenas ocasionalmente até então) preenchem os episódios com suas jornadas pessoais, oferecendo um prisma mais intimista das relações entre humanos e androides, humanos e humanos, androides entre si e, especialmente, androides com sua recém-descoberta consciência.

Com eles, entendemos que a clássica pergunta da ficção científica – “O que aconteceria se inteligências artificiais despertassem?” – só poderia ter uma resposta: “Depende”. Porque, pelo menos em Westworld, cada indivíduo consciente reage de acordo com suas experiências e não apenas por programação. Assim, enquanto o clichê da “revolução das máquinas” pode fazer sentido para uma androide que foi traumatizada por sua submissão no passado, talvez ele não faça para um que foi criado entre humanos, nem para uma que sempre teve uma posição de poder, ou para quem vê sua situação de forma mística.

É a partir do contraste entre essas experiências particulares e a guerra geral que se coloca a maior questão para a próxima temporada: que lugar essas criaturas vão ocupar no mundo, agora que não têm mais um parque para separá-los de seus criadores? E que lugar ocuparão seus criadores, agora que não têm mais os meios nem sequer para identificá-los? Só Nolan e Joy, provavelmente, sabem a resposta.

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