Artistas malditos

Não sei se vocês já leram alguma aventura de Sherlock Holmes, mas tenho uma coleção completa aqui e, de tempos em tempos, pego uma das histórias para folhear antes de dormir. São divertidíssimas, recomendo! Mas tem uma pegadinha… Elas podem ser bem preconceituosas.

Numa dessas noites, estava lendo “O Sinal dos Quatro” (ou “O Signo dos Quatro”, dependendo da sua versão) quando cruzei com um trecho que me embrulhou o estômago. Para justificar os atos violentos de um dos vilões, Holmes explica que ele pertencia a um povo “naturalmente selvagem”. A descrição se segue assim:

“Os aborígenes das ilhas Andamã (…) são naturalmente horrendos, têm a cabeça grande e disforme, olhos pequenos e ferozes e feições deformadas. Têm pés e mãos extraordinariamente pequenos e são tão ferozes e intratáveis que todas as tentativas de aproximação dos funcionários ingleses falharam em todos os níveis. Eles sempre foram o terror dos náufragos, fazendo saltar os miolos dos sobreviventes com bastões de ponta de pedra ou atirando-lhes os seus dardos envenenados. Esses massacres sempre terminam com um festim de canibais”.

O show de horrores continua até o final e digo que é difícil terminar esse conto sem amaldiçoar o autor ou condená-lo à pena perpétua do repúdio e do esquecimento por sua falta de empatia com povos estrangeiros e com pessoas pequenas. Pobres andamãs!

Mas calma, muita calma. Esta sou eu, leitora de 2018 com uma bagagem científica e antropológica de quase 130 anos à frente de Sir Arthur Conan Doyle. Na época, ele não era o único a acreditar seriamente que as características físicas de uma pessoa podiam ser lidas como traços de caráter (há uma passagem em que ele analisa outro personagem pelo formato do queixo). Nem tampouco era raro, às vésperas de 1900, ver personagens indígenas, nativos de países colonizados por europeus, retratados como inferiores, como criaturas pouco inteligentes que precisavam ser “civilizadas”. Os tempos mudaram, veja só! Ainda bem.

E, se eles mudaram, não quer dizer que precisam apagar tudo o que veio antes. Aliás, eles mudaram justamente por causa do que veio antes – não dos preconceitos, é claro, mas das ideias, das pequenas ousadias e das visões ligeiramente inovadoras que cada artista ou pensador trouxe para agregar ao seu momento. Conan Doyle ensinou o mundo a fazer literatura policial, não serei menos grata a ele por conta de seu racismo.

Digo isso porque tenho visto muitas figuras históricas sendo reclassificadas como “artistas malditos”, indignos de nossa atenção nestes tempos tão conscientes. Artistas machistas, racistas, xenófobos, homofóbicos, celebridades detestáveis e de vista tão estreita. Deveríamos ignorá-los, não é mesmo? Tem certeza?  Se fosse excluir da minha lista todos os escritores que desprezam meu gênero, jamais teria me tornado leitora de ficção científica. Talvez jamais tivesse me tornado leitora de qualquer coisa e dificilmente teria ido trabalhar com cultura. Devo muito a eles, apesar de não me enxergarem – e, sinceramente, pior para eles.

A questão é que eu posso não concordar com tudo o que esses artistas pensam, mas me interesso por sua arte. Como eu ou você, esses humanos terríveis tiveram ou têm grandes ideias, tiveram ou têm certas sensibilidades, e são elas que eu quero aproveitar, não suas opiniões mesquinhas ou seus comportamentos mimados. Quero saber que histórias imaginaram, como as contaram, como trabalharam as cores e os sons e como interpretaram os sonhos. Quero aprender com eles, me emocionar com eles e, se possível, ser melhor do que eles. Porque, quem sabe, talvez eu seja capaz de discordar de alguém sem tampar meus ouvidos ou calar sua voz. Todos deveríamos ser.

Mas talvez você não queira nada disso, e tudo bem. Ninguém vai te julgar se você escolher eliminar D.W. Griffith da sua estante, ou Roman Polanski (apenas não faça o mesmo com Woody Allen, não há nada provado contra ele). Eu não eliminarei. Não porque separo friamente o artista de sua obra – acho que sim, a arte fala muito sobre o criador – mas porque separo o artista em vários pedacinhos, e alguns deles podem ser mais interessantes do que outros. Guardarei apenas esses para formar meu mosaico.

 

Foto: Gabriel Almeida

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