Zumbis à la française

Pessoas comendo pessoas, mortas mas ainda andando pelos cantos, sofrendo espasmos involuntários e caçando como se respondessem a instintos de algum outro animal que não o humano. São zumbis, sem dúvida, que cercam o introvertido músico Sam (Anders Danielsen Lie) no longa de estreia de Dominique Rocher, “A Noite Devorou o Mundo”. Mas não é dos zumbis que ele foge.

O drama francês (que é, sim, muito mais um drama do que um filme de terror) começa com o protagonista numa festa na casa do que assumimos ser sua ex-namorada. Ela agora está com um novo parceiro, mas hesita em devolver as “fitas” que pertenciam a Sam e é por isso que ele está ali. Mais tarde, descobriremos que eles estão falando de uma caixa cheia de fitas cassete, contendo gravações da infância dele – entre elas, uma em que ouvimos um pai falando em outra língua (norueguês, que é a nacionalidade do ator) e uma mãe pedindo para que ele fale em francês. Esse estrangeirismo faz todo o sentido na hora de construir um personagem que, o tempo todo, se sente “separado do mundo”.

Também é nessa abertura que descobrimos que Sam não é muito sociável. Talvez ele seja apenas introvertido, talvez seja algo a mais, mas o fato é que a ex pede que ele “fique um pouco e converse com as pessoas”, o que ele se recusa a fazer, inclusive fechando a porta atrás de si quando finalmente encontra as fitas. Ótima ideia, já que, quando ele acorda, Paris foi varrida por um surto de zumbis e o apartamento está banhado em sangue.

Um espectador acostumado a Hollywood espera que Sam pegue uma mochila e reúna suprimentos para começar sua aventura pelas ruas, mas não é isso que ele faz. Ele fecha todas as entradas para o prédio e desbrava, pacientemente, cada um dos apartamentos em busca de ameaças, alimentos e ocupações. Encontra uma escopeta, uma arma de paintball e um vizinho morto-vivo (Denis Lavant, de “Holy Motors”) que mantém preso no elevador como companhia. Também descobre o quarto de um adolescente punk e alivia toda a sua angústia na bateria do garoto – até perceber que o barulho, é claro, atrai os zumbis como moscas à luz.

A relação de Sam com a música agrega ao filme uma perspectiva que não esperávamos ver num longa do gênero. Diante do apocalipse, esse protagonista não regride ao estado primitivo de “apenas sobreviver”, mas coloca a cultura (incluindo rituais como o velório de alguém que ele encontra sob o assoalho) como igual prioridade. Ele é humano, afinal, e o que o difere daquelas criaturas lá fora é justamente sua capacidade de transformar coisas em símbolos, de estabelecer regras e dar sentido ao caos.

Mas quão humano pode ser Sam sem uma vida social? Eventualmente, uma mulher (Golshifteh Farahani) aparece para levantar essa questão e desestabilizar a fortaleza segura que ele construiu. Se há outros sobreviventes, não é natural que ele queira se juntar a eles? Ele deveria querer? Note que Sam nem mesmo liga um rádio ou uma TV para saber o que se passa em outros lugares no mundo… A solidão lhe convém.

Mas é preciso “destruir o castelo” e “saltar para o mundo de fora” ou ele será, literalmente, devorado. Quando compreende isso, Sam caminha entre zumbis no mesmo corredor que atravessara durante a festa, tomado por uma fumaça que poderia muito bem ser o gelo seco de uma boate. São zumbis? São pessoas vivas? Que diferença faz, quando elas ignoram umas às outras? É preciso saltar.


A Noite Devorou o Mundo” estreia no dia 5 de julho nos cinemas.

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