Conversas verticais

Você já reparou em como as grandes empresas de tecnologia adoram criar novidades que não são tão novas assim? A última delas foi um botãozinho discreto, adicionado de surpresa no canto do feed do Instagram, com o formato irônico de uma TV de tubo. Irônico porque, lá dentro, você vai encontrar praticamente o oposto que você encontraria numa televisão.

A gente que trabalha com comunicação tem essa mania de olhar desconfiado para qualquer novidade que aparece. Sabemos o quanto é preciso se manter atualizado e as redes sociais se tornaram nossas melhores amigas nos últimos anos, mas não conseguimos deixar de questionar o motivo pelo qual certas coisas evoluem por um caminho e não pelo outro. Foi essa a pergunta que me fiz quando notei essa TVzinha fofa no meu Instagram, que leva o nome de IGTV.

À primeira vista, não encontrei nada que já não tivesse visto antes. O próprio Instagram já tinha se jogado nos vídeos verticais com o Stories (juro que nunca vou entender a função disso) e me lembro bem da dificuldade que foi fazer minha primeira live no Facebook nesse mesmo formato. A diferença, promete o Insta, é que esse novo aplicativo (que pode ser baixado à parte ou usado dentro do Instagram) vem para competir com o Youtube: ele suporta vídeos de até 10 minutos e é exclusivo para a linguagem audiovisual, recomendando ao usuário um vídeo atrás do outro ou permitindo que você acesse facilmente todos os vídeos de um mesmo perfil. Diferente do Stories, esses não se “autodestroem” após 24 horas. Eu acho.

De fato, é tudo muito familiar para quem já usa qualquer rede social, mas há uma pequena e muito importante diferença: este não é nem um “acessório” de uma plataforma existente, nem uma plataforma totalmente nova onde você terá que construir sua audiência do zero. Esta é uma plataforma que aproveita todos os seus contatos já existentes numa das redes sociais mais populares do mundo, mostra o que quer que você tenha produzido a eles e diz: isso é a sua TV, e ela agora é vertical. Sua TV. Não seu celular, não sua timeline.

Isso pode parecer apenas uma mudança estética – afinal, os televisores já foram quadrados antes de se tornarem cada vez mais largos –, algo pensado para encaixar melhor o conteúdo dentro de um celular, talvez, mas é mais do que isso. É uma mudança de conceito. Para quem produz vídeos, pensar um conteúdo vertical significa colocar o apresentador em primeiro lugar. Elimina-se a possibilidade de um debate (visualmente, não cabem duas pessoas num mesmo quadro), elimina-se a importância do cenário (ele até existe, mas é quase todo coberto pelo apresentador) e joga-se toda a atenção para o rosto – ou seja: para a reação, os olhos e a boca, e não mais para os gestos. Para mãos italianas como as minhas, é um horror; mas, para línguas ágeis e ácidas como as dos adolescentes de hoje, é perfeito. Além disso, vídeos verticais são mais desconfortáveis para os olhos (o cinema é horizontal por um motivo) e isso incentiva a produção de vídeos cada vez mais curtos, como pílulas de informação que você precisa digerir rapidamente. Haja estômago!

Comparar esse tipo de vídeo com uma televisão, na mesma semana em que uma pesquisa identificou que a Netflix é a plataforma audiovisual mais assistida nos Estados Unidos (ela não levou em conta o cinema) é o mesmo que dizer que a programação fixa está morta e que o usuário agora é rei – e protagonista do que ele próprio assiste. O próximo passo, para nós jornalistas, é aprender a usar essa nova realidade a nosso favor, e tirar os olhos desse espectador-usuário do próprio umbigo. Será difícil. Mas está lançado o desafio.

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