Lendo Anne Rice

Algumas memórias ficam guardadas por tanto tempo que a gente até esquece que aconteceram de verdade… Até que, um dia, elas vêm à tona por um motivo qualquer. E você pensa: como foi que eu fiquei tanto tempo sem lembrar?

Foi assim num dia desses, quando me veio à mente um hábito que eu costumava ter com minha mãe. Não sei se ela se lembra, nem se fizemos isso por muito tempo, mas, pensando hoje, me parece a coisa mais bonita que poderíamos ter feito juntas, e tenho saudades.

Nossa brincadeira era compartilhar livros, mas não exatamente. Lembro-me, por exemplo, de quando ela leu a trilogia das bruxas, de Anne Rice (“The Witching Hour”, “Lasher” e “Taltos”). Os livros estavam em inglês e, na época, eu ainda começava a aprender a língua. Então, ao invés de esperar que eu lesse também, a cada capítulo ou trecho que percorria ela me colocava a par dos acontecimentos.

Ela não fazia isso como quem conta uma ficção, mas de um jeito todo particular. De manhã (pelo menos é como eu me lembro), ela dizia o que tinha acontecido com os personagens na noite anterior, como se falasse de nossos amigos em comum. “Você não sabe o que a Rowan fez!” – ela ia gritar, de dentro do banheiro. “Já te conto!”. E, de repente, Rowan Mayfair, a protagonista, se tornou nossa heroína e logo nos dividimos entre torcer por Michael, o humano, ou nos deixar seduzir pelo misterioso Lasher, uma entidade que perseguia as bruxas da família. Foi como se eu tivesse lido cada página, exceto que eu não tinha.

Anos depois, tive a sensação mais estranha ao pegar o primeiro livro na mão, já com a capa quase caindo, e mergulhar de novo. Agora sozinha. Redescobri personagens, lugares, eventos e criei novas impressões… Mas era como se fossem velhos conhecidos, eu sentia que já tinha estado ali.

Essa lembrança me fez pensar naquela ideia que achamos tão óbvia de que ler é necessariamente um ato solitário. Que te transporta para um lugar muito longe e te faz ignorar tudo à sua volta, até que acaba e te deixa sozinho numa depressão profunda. Bem, sei melhor do que ninguém que um bom livro exige mesmo concentração e sou a primeira a escolher um esconderijo bem isolado para não ser interrompida, mas isso não significa que a leitura não possa ser compartilhada em seus intervalos.

Há outros jeitos de fazer isso, além de contar a história para alguém. Minha família (que, penso agora, não foi lá muito normal) leu junto toda a saga “Harry Potter”, revezando os livros entre si, e fez o mesmo com “O Senhor dos Anéis”. As conversas, nesses períodos, se resumiam às agruras de Snape e às loucuras de Gandalf, e você pode imaginar a dificuldade que era fugir de spoilers com quatro leitores sob o mesmo teto. Mas funcionava, posso garantir.

O fato é que dividir uma leitura pode ser tão natural quanto dividir um filme ou uma série da Netflix, e pode te fazer se apaixonar ainda mais por uma história. E você pode até fazer isso com alguém que não está lendo o mesmo livro, e descobrir uma experiência especial para os dois. Bora experimentar?

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