“Todo Dia”: adolescente é condenado a viver as vidas dos outros em curioso romance fantástico

Ideias criativas podem ser terrivelmente difíceis de realizar, mas, pelo menos, sempre vão soar mais interessantes do que qualquer clichê bem feito. É esse o caso do longa “Todo Dia”, que troca o padrão “menino-conhece-menina” por algo como “menino-que-também-pode-ser-menina-mas-na-verdade-não-é-nem-gente-conhece-menina”.

O filme é a adaptação do romance homônimo de David Levithan e tem direção de Michael Sucsy (“Para Sempre”), com roteiro adaptado por Jesse Andrews (“Eu, Você e a Garota Que Vai Morrer”). Ele conta a curiosíssima história de “A”, uma pessoa (?) que habita, a cada dia, o corpo de outra pessoa. Complicado, né?

A situação, pelo menos, tem suas regras: “A” sempre acorda na pele de alguém da sua idade (no momento, ele/a é adolescente) e jamais repete o mesmo corpo. Ele/a não escolhe o hospedeiro, mas é sempre alguém na mesma região – então, se quiser mudar de ares, terá que fazer com que seu “eu” do dia durma em outra cidade, ou o contrário.

Como você deve estar imaginando, “A” não sabe onde nasceu, quem foram seus (primeiros) pais ou mesmo se algum dia já teve um corpo só seu. Desde suas primeiras memórias, sempre tinha sido assim e ele/a só começou a estranhar quando notou que os outros gostavam de fazer planos para o futuro. Para “A”, o futuro sempre fora imprevisível. Digo, mais do que o normal.

Viver muitas vidas, evidentemente, tem seus prós e contras para nosso estranho protagonista. Por um lado, “A” tem uma capacidade infinita de compreender os outros e sabe exatamente o que há de comum e de especial em todas as pessoas. Por outro, ele/a não sabe quase nada sobre si mesmo/a e precisa aceitar o fato de que jamais terá um amigo por mais de um dia – e mesmo esses vão pensar que estão falando com outra pessoa. Você poderia imaginar que os hospedeiros seriam uma boa companhia, mas eles perdem a consciência enquanto abrigam “A” e, depois, não se lembram de nada.

De certa forma, “Todo Dia” se aproxima mais de uma tragédia do que de um romance, mas o ponto de vista transforma a história em algo bem mais fácil de digerir: um romance proibido que vai ensinar algumas lições de vida e tornar um pouco mais especial a vida de alguém absolutamente comum. No caso, Rhiannon (Angourie Rice).

Rhi (vamos chamá-la assim) é uma garota de 16 anos que tem um péssimo namorado, interpretado pelo ator Justice Smith (da série “The Get Down”). Um dia, o corpo dele é ocupado por “A” e os dois fogem da escola para viver uma tarde romântica. Na manhã seguinte, o verdadeiro namorado a ignora como de costume, enquanto “A” toma a decisão de reencontrá-la. O problema é que, agora, ele não mais é Justin, mas sim Amy.

Ao trocar aleatoriamente o corpo de seu protagonista por versões masculinas, femininas, trans, negras, loiras, gordas e magras, sadias ou não, o filme propõe um exercício importante de empatia. Afinal, Rhi não está se apaixonando por um tórax maravilhoso e um par de olhos azuis, mas sim por uma personalidade que pode se esconder sob qualquer imagem. E essa personalidade está tentando, de todas as formas, respeitar cada um dos corpos que habita – o que o ensina a respeitar também os que não habita.

Vale pensar que a “desconexão” com a própria aparência é algo que acontece com todo adolescente, desesperado para se misturar mas ainda inseguro sobre sua identidade. É uma metáfora bastante direta sobre a juventude e, provavelmente, a primeira coisa que salta aos olhos neste filme. Mas ele tenta ir um pouco além e mostra como a presença de “A” pode ser usada para influenciar a vida de seus hospedeiros, promovendo algum diálogo que eles não conseguiriam ter sozinhos, ajudando-os a pedir ajuda ou a tomar atitudes melhores. Com tudo o que ele/a já viu, é fácil enxergar soluções invisíveis aos olhos egocêntricos dos outros humanos.

O que falta a “Todo Dia”, certeiro em tantos aspectos, é confiança. Ora, uma história como essa pedia que o foco estivesse no personagem mutante, mas é mais fácil acompanhar o olhar estável da humana e evitar perguntas difíceis. É o que o filme faz. Assim, o espanto logo se dissipa e somos levados de volta à zona de conforto, pouco incomodados pela existência de “A” e mais preocupados com o sucesso ou fracasso de seu primeiro amor.

Mais interessante seria, talvez, se o casal mergulhasse em algum tipo de investigação sobre a natureza de “A”,  se tramasse um plano para organizar sua vida, ou se ele/a estabelecesse algum hábito para tornar sua vivência um pouco menos solitária (penso comigo que ele/a poderia facilmente assumir uma identidade virtual e ter sua própria comunidade, independente da vida física). Mas não: planejar não é o forte desse protagonista.

É verdade que há indícios de tudo isso espalhados pelo filme, mas nada se consolida o suficiente para que o público saia do cinema realmente satisfeito. “Falta alguma coisa” é a sensação que fica, como se os criadores tivessem desistido de sua grande ideia no meio do caminho e soubessem tanto quanto nós o que fazer com aquela premissa. O resultado acaba se mostrando um pouco convencional demais, correto demais, seguro demais. E, para um filme sobre um visitante de corpos, isso é a última coisa que se poderia querer.

“Todo Dia” estreia no dia 26 de julho nos cinemas.

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