O Anima Mundi 2018 vem aí (e já conhecemos alguns destaques)

Tem gente que acha que animação é coisa de criança e, com isso, estão tentando dizer que é ruim. Não sei se reviro os olhos e ignoro ou respiro fundo, convido para um jantar e coloco discretamente para rodar uma sessão de “Mary & Max”, “Túmulo dos Vagalumes” ou “O Castelo Animado”. Ainda não me decidi.

O fato é que, em agosto, acontece um dos festivais de cinema mais bacanas do calendário paulistano e, não por acaso, é de animação. Entre os dias 1 e 5 de agosto, anota aí, cinco espaços diferentes (Caixa Belas Artes, CCBB, Centro Cultural São Paulo, Memorial da América Latina e Cinusp) recebem a 26ª edição do Festival Anima Mundi, um evento que acontece todos os anos e que, em 2018, vai trazer exatos 576 filmes – a maioria curtas, mas também alguns longas – para a capital paulista e para o Rio (lá, o festival é em julho). São produções de mais de 40 países diferentes, incluindo retrospectivas, mostras especiais e filmes inéditos.

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“Happiness”, de Steve Cutts, ilustra a vida frenética nas cidades por meio da busca desesperada de um rato por felicidade

Hoje de manhã, tive a chance de conhecer onze desses curtas, sendo dez da programação adulta e um infantil. E isso é outra coisa que eu adoro nesse festival: você não vê apenas um filme por dia, mas tem contato com várias ideias, visões e maluquices diferentes a cada sessão. No caso, o “menu degustação” incluiu um filme brasileiro, dois estadunidenses, um canadense, três britânicos, um sul-coreano, um suíço, uma coprodução entre Canadá, França e  Suíça e outra entre Holanda e Bélgica.

Essa última, chamada “A Origem do Som”, foi tão grotesca que eu honestamente não recomendo a ninguém, mas o restante me garantiu uma manhã deliciosa. Em particular, três curtas me encantaram mais que os outros: o inglês “Happiness” (“Felicidade”, 2017), o coreano “(OO)” (2017) e o melhor de todos, o canadense “Animal Behaviour” (“Comportamento Animal”, 2018).

O primeiro acompanha um rato numa selva de pedra à lá “Blade Runner”, decadente e neon. Tudo à sua volta promete felicidade, desde os carros de luxo até os televisores na liquidação, passando por uma garrafa de cerveja e um frasco de comprimidos. Cada promessa traz consigo uma frustração, e sucessivas tentativas arrastam o pobre ratinho a uma felicidade cada vez mais fugidia, até que ele se vê, finalmente, infeliz e sem saída. A animação é um trabalho de Steve Cutts e, felizmente (perdoem a ironia), está disponível na íntegra no site oficial do artista (aqui).

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“(OO)”, de Oh Seo-ro, transforma algo simples como um resfriado numa explosão de imagens e sensações

Indo para um caminho bem mais experimental está o divertido e aflitivo “(OO)”: um curta que explora todas as metáforas possíveis para traduzir na tela a angústia e o terror que é ter um simples resfriado. Imagine torneiras, tempestades, vulcões, desertos e lamaçais sufocantes e você não chegará nem perto da agonia pela qual passa esse protagonista. Eu, que venho de uma semana de espirros e lencinhos, me identifiquei.

Por último, recomendo para qualquer pessoa (de qualquer idade) que esteja indo ao Anima Mundi que separe um tempinho para ver a sessão “Curtas 4”, que é onde está sendo exibido o ridiculamente engraçado “Animal Behaviour”. Esse filme coloca um cão, um gato, um grilo, uma lesma, um passarinho e um porco numa sala de terapia, perturbada pela chegada de um gorila com problemas de agressividade. Cada um deles tem suas questões, reprimidas ou não, e o cão tenta administrar a sessão do jeito que consegue, sem esconder que também tem suas esquisitices. Amei.

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“Animal Behaviour”, de Alison Snowden e David Fine, brinca com as neuroses humanas colocando um grupo de animais diversos dentro de uma sessão de terapia

A coleção ainda incluiu o belíssimo “Weekends” (“fins de semana” – foto do título), projeto independente do artista da Pixar Trevor Jimenez sobre um garoto dividido entre pais separados, além do brasileiro “Guaxuma”, sobre a história de uma menina que cresceu com o pé na areia e agora resgata suas memórias com um mix de fotografias e ilustrações. Para as crianças, recomendo o fofo “Coucouleurs” (As Cores do Cuco), sobre um pássaro que é rejeitado pelos outros pelas cores das suas penas. Simples, mas não subestima a inteligência dos pequenos.

Além dos curtas, o Anima Mundi 2018 também vai exibir o longa “The Breadwinner”, que concorreu ao Oscar de Melhor Animação no início do ano e venceu o Festival de Annecy, e terá uma sessão especial de “Ilha dos Cachorros” (Wes Anderson) no Memorial da América Latina. Para saber horários e preços, consulte o site http://www.animamundi.com.br.

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