Eles sabem.

Eu não sei exatamente quem são “eles”, mas sei que eles sabem.

Sabem que, no último sábado, eu e o meu marido paramos para perguntar o preço de algumas lentes numa galeria da Avenida Paulista. Na mesma hora, espalharam anúncios da Canon pela sua timeline – não espalharam pela minha, é claro, porque sabiam que era ele quem gostava de fotografia, como sabiam que era Canon, não Nikon.

Eles também sabem que, na mesma tarde, eu parei por alguns segundos na frente de uma vitrine da loja Lola & Maria, mas não entrei. Como não entrei, resolveram me enviar as promoções por e-mail – um e-mail que eu provavelmente concordara em receber algum tempo atrás, mas que não aparecia na minha caixa de entrada já há algum tempo. Coincidência, não?

Outra coincidência foi ter chegado, no mesmo dia, outro e-mail com uma campanha dos chocolates Lindt. Nós dois não compramos nenhum chocolate naquele sábado, mas pegamos uma amostra oferecida pelo vendedor, como sempre fazemos quando temos a chance. Não fizemos nenhuma transação. Não tiramos nenhuma foto. Não preenchemos nenhum cadastro. Só aceitamos uma trufa e fomos embora. Mas eles sabiam.

Hoje de manhã, percebi que eles não sabem apenas onde estou ou o que estou procurando (ou consumindo, ou meramente observando), mas também o que faço quando ninguém está olhando. Ou, melhor, quando ninguém deveria estar olhando. No caso, esvaziei minha lixeira e levei uns cinco minutos arrumando uma peça que tinha soltado. Pedi ajuda para o maridão e ele resolveu o problema rapidinho, mas ele não foi o único a me escutar. Quando abri meu computador, dei de cara com a foto de outra lixeira idêntica, espremida entre os posts no meu Facebook. Vocês sabem, caso eu precisasse comprar uma nova. Não precisei.

Agora, enquanto escrevo este texto levemente apocalíptico, uma notícia se destaca das outras no meu feed: uma que diz que seu celular, em breve, será capaz de fazer ligações no seu lugar. Para marcar compromissos, por exemplo. Agendar um cabeleireiro ou um horário qualquer, agindo exatamente como um secretário – voz humana, trejeitos e tudo (é claro, com aquele jeito esquisitinho de Waze). Pois quanto tempo até que ele se encarregue de ligar para aquele parente distante quando você não estiver a fim, ou de terminar aquele relacionamento capenga porque você não vai se dar ao trabalho? E  por que ele não faria, sozinho, aquela compra que você decidiu deixar para depois, e não tomaria a liberdade de encomendar todo o supermercado do mês, sabendo o que você compra, o que está faltando e o que você deveria comprar a mais (segundo, bem… Segundo ele mesmo)?

E por que não? Ora, simplesmente porque não. Eu gosto de organizar minha própria agenda, tomar decisões que não fazem sentido e resolver meus próprios problemas, mesmo que seja de um jeito ruim. Gosto de comprar coisas que nunca comprei, de mudar de ideia em cima da hora, de ouvir as vozes de estranhos e saber se eles estão num dia bom. Obrigada por nada, mas não estou contratando secretários.

(Fuçando no meu aparelho, desativo as permissões do Google e da Motorola para acessar meu microfone, com a certeza de que será uma rebeldia inútil.)

 

Foto: Gabriel Almeida

2 comentários em “Eles sabem.

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