Rosé gold

Tons pastéis se espalham pela minha timeline. Rosa, azul, dourado, creme, rosé gold, preto e branco. Cadernos decorados como se cada página fosse um quadro. Mesas amplas e convidativas com seus vasinhos, canecas, luminárias, canetas, lápis, cadernos, notebooks. Peças decorativas com um toque irônico sorriem para a câmera. Fofas e autênticas. Idênticas às da página ao lado. Escritórios ou cenários de um filme do Wes Anderson? Perfeitos, limpos, aconchegantes, simétricos. Suas habitantes, também: sapatilhas delicadas, vestidos rodados, cabelos cuidadosamente bagunçados. Nas fotos quadradas, os pés não doem, o vento não bagunça a franja, o café não suja a mesa. As unhas estão bem feitas, o livro harmoniza com o computador, a almofada, o cobertor grosso de tricô. Será que alguém o lê?

Queria que todas as minhas coisas combinassem numa grande e coerente paleta de cores. Queria que meu guarda-roupa fosse planejado, que minhas anotações fossem organizadas, que a minha cozinha tivesse panelas e potes de vidro expostos de propósito. Queria que minhas unhas tivessem o tom das minhas meias, dos meus cadernos e da minha xícara de café. Queria ter uma cor de cada coisa e ainda assim poder dizer que sou minimalista, sustentável, simples. Millenial. Queria ter um planner e ser o tipo de pessoa que saberia usá-lo.

Acontece que uma agenda semanal funciona perfeitamente para mim. Tenho uma caneca vermelha com lápis diversos que ganhei em eventos e que não combinam em nada. Minha mesa é coberta de anotações confusas, canetas feias de quatro cores, fios enrolados, garrafas de água, um Yoda e um Chewbacca. Isso, do meu lado – do outro tem uma mesa de corte, rolos de fita adesiva, folhas enormes de isopor, potes de tinta escorrendo pelas bordas, um fone de ouvido com orelhas descascadas.

E foi sentindo-me assim, inspirada e autocrítica, que fui com o Gabriel (o dono do lado esquerdo da mesa) a uma feirinha de rua especial, cheia de produtores independentes expondo seus vasinhos de suculentas, carimbos de lhamas, geleias artesanais e roupas de algodão orgânico. Utensílios essenciais para tornar sua rotina mais arrumada, estilosa, confortável, incrível – de longe, vinha sonhando com todos desde que os vira na tela do celular.

De perto, porém, nem mesmo o mais simpático dos bloquinhos de cantos arredondados conseguiu resistir à muvuca que é uma feira de rua em São Paulo. Ali, entre centenas de cotovelos, ficou difícil apreciar a beleza singela de um copinho de concreto, o charme de um prato pintado à mão ou o sabor particular de uma granola feita em casa. Aqueles tons clarinhos que ficavam lindos no Instagram já não passavam a mesma sensação pacífica quando vistos por entre os ombros de clientes inquietos, e de repente aquele cenário imaculado que eu namorara na internet já não parecia tão sincero em meio à bagunça inevitável da vida real.

Talvez a rotina, afinal, não pudesse ser pausada para uma foto, dirigida e iluminada… E nem todo o rosé gold do mundo poderia tornar meus dias mais sofisticados.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s