Histórias descartáveis

Quando foi a última vez que você assistiu a um filme que ficou com você? Digo, realmente ficou, até que você assistisse de novo, lesse uma crítica, convencesse todos os seus amigos a verem também e finalmente incorporasse frases inteiras, ideias e referências da tela para a sua vida? Faz tempo, né?

Não sei se foi a idade, a correria, o fim das videolocadoras, a decadência das TVs ou o fato de que hoje o cinema virou meu trabalho, mas tenho a sensação de que filmes e séries se tornaram objetos cada vez mais descartáveis. Pequenas peças ridiculamente caras e trabalhosas que vêm, são vistas e não conseguem mais vencer em meio à avalanche de lançamentos que se proliferam todos os dias.

É irônico, até: quanto mais a arte se dissemina, mais efêmera ela se torna. Quanto mais opções o público tem diante de um catálogo da Netflix ou da programação do multiplex, menores são as chances de ele ainda estar pensando no título escolhido dali a uma semana. As coisas simplesmente não duram. Não se fixam. Mal dá tempo de engolir e já tem outro filme-que-você-precisa-ver virando a esquina e indo embora.

…filmes e séries se tornaram objetos cada vez mais descartáveis. Pequenas peças ridiculamente caras e trabalhosas que vêm, são vistas e não conseguem mais vencer

Escrever sobre isso é ainda mais estranho. Você passa o ano inteiro alimentando a expectativa dos leitores para uma obra e, quando ela estreia, a fila anda e seu “filme mais aguardado” evapora feito um Vingador. Quase sempre, a data de lançamento é o último dia que você vai ter para publicar uma crítica ou repercutir o assunto e, na manhã da segunda-feira, ele já será jornal enrolado. “Estreia da semana passada”.

No streaming, então, é de dar dó. Todos os dias, chega algo que poderia ter dado muito certo se alguém apenas tivesse tido tempo de digerir. Mas não tem. Quem, em sã consciência, consegue acompanhar todos os originais da Netflix, da HBO, da Hulu e da Amazon Prime e ainda se manter atualizado com a vigésima temporada de Grey’s Anatomy, com a oitava de Game of Thrones e com as reviravoltas infinitas da vida real?

Nesta quinta, estreiam nove filmes nos cinemas e eu não vou dizer qual deles você deve ver. Mas vou pedir para que, se você vir algum, tente conversar com qualquer pessoa sobre o que o tocou. Dedique alguns minutos a pensar no que acabou de ver e só vá ver outra coisa depois que tiver tiver apreendido, pelo menos um pouquinho, o que acabou de consumir. Vai ser bom para você, para mim, para essa pessoa e para quem ainda se esforça para fazer boa arte.

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