Estás me matando, Susana – das pequenas violências que se confundem com amor

Eligio (Gael García Bernal) é um canalha. É mesmo. Todos os seus amigos sabem disso, suas amantes sabem disso e sua esposa definitivamente sabe disso. O problema é que ele ainda não sabe disso.

O peculiar longa mexicano “Estás Me Matando, Susana”, que chega aos cinemas brasileiros no dia 25 de outubro, joga uma luz (um tanto difusa, mas ainda assim uma luz) sobre um lado dos relacionamentos tóxicos que frequentemente é subestimado: o ponto de vista masculino. Mais especificamente, o ponto de vista daquele homem que realmente acredita – digo, realmente – que todas as suas atitudes erradas são “naturais”, meros deslizes ingênuos que vêm no pacote quando se é homem.

O filme não fala de um homem bruto e agressivo, que bate em mulheres por esporte ou compra brigas em bares na estrada, mas escolhe observar um homem comum, delicado, ingênuo e até sensível. Um jovem ator apaixonado por sua bela esposa (enfatizo o “bela” porque as aparências são importantes na história) que, apesar disso, tem o hábito de se envolver com outras mulheres, de voltar bêbado de madrugada e perturbar o sono da companheira pedindo sexo. Ele também não pensa duas vezes antes de empurrá-la para o banco do passageiro quando ela diz que vai dirigir, ou de interromper o trabalho dela porque está se sentindo entediado e, para completar, tem o irritante costume de argumentar que “ela é sua esposa, por isso precisa fazer o que ele diz”.

Colocando assim, Eligio parece um monstro (e, em alguns momentos, realmente é). Mas o filme não lhe carimba esse rótulo e, ao invés disso, procura mostrar a humanidade e a fragilidade que às vezes escapam por baixo de toda essa pose de “machão”. Igualmente ambígua é a mulher que vive ao seu lado, a Susana do título (Verónica Echegui). Ela é uma escritora e bem que gostaria de está-lo matando, mas na verdade só está tentando manter distância, pois tem um problema: Susana quer terminar o casamento, mas só é capaz de tomar atitudes (quaisquer atitudes) quando Eligio está longe ou dormindo.

Então, ela decide fugir – literalmente, para um curso de alguns meses nos Estados Unidos – sem deixar nenhum recado. Acontece que Susana não apenas foge, mas arranja um amante (que é o extremo oposto de seu marido) e tenta começar uma nova vida, torcendo para que Eligio simplesmente faça o mesmo, mas ele não o faz. Ele viaja atrás dela e é aí que começa o mais bizarro jogo de perseguições e provocações desde “A Garota Exemplar”. É complexo, íntimo e aflitivo, para dizer o mínimo.

Mas este não é um Gillian Flynn e há, pelo menos, uma diferença radical: é que “Estás Me Matando, Susana” tenta se posicionar como uma comédia romântica. E aí, você pode imaginar, temos um impasse. Pois não apenas não há nada de cômico no relacionamento desses dois – abusivo de ambos os lados, com problemas de posse, respeito e dependência – como também não há nada de romântico, pelos mesmos motivos. E não saber se a intenção era criticar, humanizar ou romantizar essa relação é um problema, não é? A mim, parece um grande problema.

Estás me matando, Susana” tem direção de Roberto Sneider e é baseado no livro “Ciudades Desiertas” de José Agustín.

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