Poderia me perdoar? – Melissa McCarthy se vinga do mercado literário em papel bruto e genial >MostraSP

Há muito pouco glamour na vida de um escritor. Até os mais otimistas dos clichês costumam envolver solidão, insegurança e alguma dose de álcool, mas “Poderia me perdoar?” leva a decadência da profissão a outro nível. Ainda assim, é difícil não se apaixonar pela escritora, alcoólatra e criminosa que conduz essa história.

O drama estrelado por Melissa McCarthy, que chega à Mostra Internacional de Cinema de SP neste mês, conta a história real de Lee Israel. Depois de ter escrito algumas biografias bem sucedidas nos anos 80, Israel foi colocada na geladeira por sua agente e viu seu trabalho seguinte ser ignorado pela editora. Sem dinheiro e vivendo em meio à bagunça, ao caos e a uma gata doente, ela decide vender algumas de suas posses e, no processo, acaba descobrindo uma oportunidade não exatamente lícita, mas muito lucrativa.

A autora começa a adulterar cartas de escritores famosos e vendê-las no mercado de arte, adicionando comentários íntimos que fazem brilhar os olhos dos colecionadores. Para isso, tem a ajuda de um novo amigo, outro escritor que conhecera anos atrás e que reencontra no bar – ele, ainda em pior estado do que ela e já vivendo de pequenos delitos.

É preciso fazer uma pausa aqui para comentar o que todos vocês devem estar se perguntando: sim, Melissa McCarthy é uma excelente atriz, independente do gênero. Por algum motivo, comediantes tendem a se sair muito bem em dramas e McCarthy não é nenhuma exceção. Aliás, sinto que seu lado cômico foi essencial na construção da personalidade sarcástica da escritora, que se diverte sozinha enganando pessoas que despreza e deseja secretamente que os seres humanos fossem tão simples quanto os gatos. Ela é detestável e, ainda assim, não podemos deixar de torcer por ela.

Mas o que realmente está em discussão neste filme, além do caráter provavelmente duvidoso da personagem, é todo o contexto frustrante que a leva (ou pelo menos a incentiva) a cometer seus crimes: é o mercado literário que prioriza vozes conservadoras e masculinas, que despreza a literatura biográfica (ou histórica), é a constatação de que o “social” e a “boa aparência” são mais importantes do que a escrita em si, ou que a verdade é irrelevante diante da sensação de que se está invadindo a intimidade do outro. “Escreva sobre si mesma, se exponha”, dizem o tempo todo para Lee, porque o que querem não é sua visão, mas seus detalhes sórdidos. E ela os entrega, enfim.

Mas entrega como se os esfregasse em suas caras, pois, ao contar sua história (o filme é baseado numa autobiografia), a autora denuncia a hipocrisia dos vendedores e a confusão do mercado sobre o que é literatura e o que é o escritor, mostrando o quanto uma obra é valorizada pelo nome assinado embaixo, e não por sua qualidade. Israel estava errada? É claro, ela já era uma mentirosa compulsiva antes de falsificar as cartas. Mas ela tem seu ponto… E é só olhar em volta que você verá que é um ponto preciso.

Poderia me perdoar?” será exibido na Mostra nos dias 23, 26 e 30 de outubro e estreia nos cinemas no dia 7 de fevereiro.

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