Culpa: suspense policial cresce e surpreende sem sair de dentro da delegacia >MostraSP

Às vezes, os filmes mais simples podem ser os mais envolventes. Em “Culpa” (Den Skyldige), longa que representará a Dinamarca no Oscar 2019 e que está na seleção da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, toda uma trama de sequestro, assassinato e perseguição é narrada sem que se veja uma única cena da ação. E, ainda assim, vemos em nossas cabeças cada detalhe.

O longa acompanha o policial Asger Holm (Jakob Cedergren) no dia que antecede um julgamento, sobre o qual não sabemos muita coisa. Ele cometeu um erro, talvez seja afastado. Por hora, está cumprindo seu “castigo” ocupando uma mesa no escritório, atendendo a ligações de civis, filtrando seus casos e encaminhando-os aos agentes responsáveis. Até que um caso lhe chama a atenção.

Uma mulher de voz infantil está no outro lado da linha, falando com Asger como se falasse com uma criança. “Benzinho”, ela diz. “Mamãe vai voltar logo”. O tom embargado eventualmente alerta o policial e ele percebe que aquilo é um pedido de socorro: essa mulher está sendo levada à força pelo ex-marido para algum lugar longe de seus dois filhos, que agora estão sozinhos em casa. Asger não deveria se envolver, mas já é tarde demais.

Culpa” trabalha assim, sem jamais sair da delegacia e sem tirar o foco do rosto do protagonista, mas a história que conta é de uma complexidade de dar inveja a produções muito mais sofisticadas. Pois aqui a tensão está naquilo que não se ouve, naquilo que se deduz e naquilo que se descortina pouco a pouco, num timing perfeito e com a atuação impecável de um homem cujos pensamentos, arrependimentos e dúvidas passam pelo rosto como se estivessem escritos na tela em letras garrafais.

O longa, é claro, não inventou o formato nem quebrou paradigmas ao escolher um ponto de vista tão limitado, mas o que “Culpa” faz, com uma autoconfiança admirável para um primeiro filme (o diretor e roteirista Gustav Möller está estreando nos cinemas), é mesclar o que poderia ser apenas um suspense policial com um drama psicológico com elementos de crítica social e moral capazes de fazer o público questionar as próprias convicções.

Na Mostra de SP, “Culpa” será exibido nos dias 18, 19, 20, 21 e 29 de outubro e, depois, ele tem estreia marcada para o dia 20 de dezembro. De um jeito ou de outro, vá por mim: não deixe de assistir.

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