A Casa Que Jack Construiu – a descida ao inferno por Lars Von Trier

Há mais em comum entre Lars Von Trier e seu mais novo protagonista, o serial killer vivido por Matt Dillon em “A Casa Que Jack Construiu”, do que o próprio cineasta gostaria de admitir. Não que Trier vá sair pelas ruas estrangulando mulheres aleatórias, mas, como seu Jack, ele também pode ter os olhos vendados, de tempos em tempos, pelo próprio narcisismo.

O filme, que chega aos cinemas cinco anos após a dobradinha de “Ninfomaníaca”, faz uma curva para um lado muito mais sombrio do diretor. Se “Ninfo” falava de uma mulher viciada em sexo e até usava humor para narrar sua tragédia, “A Casa Que Jack Construiu” traz no centro um homem viciado em assassinato, sem muito mais do que uma risada nervosa para aliviar o clima.

Um engenheiro e um poeta

O Jack do título é um engenheiro que sonhava em ser arquiteto. Dono de uma herança, ele decide construir uma casa para si, mas parece sempre esbarrar no próprio transtorno obsessivo compulsivo, que o faz demolir todo o trabalho a cada falha e começar de novo. Então, entre uma obra e outra, ele descobre um hobby que alivia aos poucos sua compulsão: matar.

O curioso é que Jack não é exatamente o mais eficiente e sofisticado dos assassinos, apesar de chamar a si mesmo de “O Senhor Sofisticação”. Suas teorias dão um ar de complexidade ao seu “trabalho”, mas a forma como ele mata, carrega e guarda seus alvos tem a sutileza de um bêbado numa corda bamba. E, ainda assim, ele segue miraculosamente impune.

A história de Jack, como a de Joe nos longas anteriores, é narrada por ele mesmo num diálogo com um ouvinte questionador. Desta vez, ao invés de um estranho fascinado por pescaria, o ouvinte é Virgílio (interpretado por Bruno Ganz) – ele mesmo, autor de Eneida e guia de Dante na Divina Comédia. Um pouco pretensioso até mesmo para Von Trier… Mas funciona. De fato, Jack desce ao inferno como Trier tem descido nos últimos anos, ambos vítimas da própria arte.

Arte e violência

Pois a história que Jack conta é a de um artista que vê na morte apenas o início de um grande trabalho. Ao longo de mais de 60 assassinatos, ele vai aprendendo a manipular suas presas, calcular seus botes e transformar seus corpos em algum tipo de manifesto – como o garotinho cuja expressão carrancuda e inerte ele converte num sorriso macabro, talvez provando a si mesmo que, mortas, as pessoas se comportarão como ele quiser.

Como sempre, Trier explora a violência com um sadismo insaciável, travando a câmera em close-up sobre rostos asfixiados ou ajustando o foco para captar o momento exato em que uma cabeça é atingida por um projétil. Sua determinação em chocar chega a ser cansativa e, em algumas passagens, difícil de defender.

Como, por exemplo, quando ele coloca Jack numa longa sequência de pura misoginia. Jack é o vilão, é claro, mas mostrá-lo cortando os seios de uma namorada por quem ele diz “ter sentimentos verdadeiros” já é ruim o suficiente em tempos como estes. Pior ainda é fazê-lo em meio a um discurso de vitimização masculina, lamentando que todos os homens já nascem culpados e que são sempre injustamente vistos assim. Vale lembrar que o diretor já foi acusado de assédio pela atriz e cantora Björk, que estrelou “Dançando No Escuro”, e que por isso foi um dos nomes envolvidos nos escândalos do #metoo.

Resposta e autoanálise

A intenção do cineasta com o trecho, portanto, é ambígua. Por um lado, ele pode estar fazendo uma crítica justamente à violência contra as mulheres (e ao silêncio de toda a indústria, quando mostra que nenhum dos vizinhos sequer reage aos gritos de socorro), tentando se colocar do “lado certo” da História. Por outro lado, o filme também pode estar usando o discurso para explicar a lógica do protagonista, que se sente no direito de agir como o predador que esperam que ele seja. Trier certamente está agindo como o sádico que esperam que seja.

Mas essa está longe de ser sua única polêmica. Em 2011, o cineasta declarou  durante uma entrevista em Cannes, para divulgar o filme “Melancolia”, que ele “entendia Hitler” e até “simpatizava” com o ditador. Isso lhe rendeu um banimento do festival até este ano, quando ele foi convidado de volta para apresentar “A Casa Que Jack Construiu”.

E é por isso que não surpreende quando Jack, lá pelas duas horas de filme, faz outro discurso defendendo sua “arte”. “Algumas pessoas”, ele diz, “pensam que as atrocidades que cometemos em nossas ficções são desejos reprimidos que não podemos cometer em nossa civilização controlada. Eu não concordo, eu acho que o céu e o inferno são um só”. Para não deixar dúvidas, o monólogo é acompanhado por cenas dos filmes anteriores de Trier, que por algum motivo acha que uma auto-homenagem é exatamente o que sua carreira precisa neste momento.

“Algumas pessoas pensam que as atrocidades que cometemos em nossas ficções são desejos reprimidos que não podemos cometer em nossa civilização controlada. Eu não concordo”

Pois talvez seja isso mesmo que o aproxima de seu protagonista: o encantamento com a própria obra. Isso e a vontade desesperada de “ser pego”, deixando um rastro de sangue escancarado na calçada para que a polícia-crítica o condene e o coloque num lugar especial. Porque às vezes é mais fácil simplesmente bancar o vilão do que dar ouvidos ao poeta no fundo da consciência.

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