A Favorita – Lanthimos explora as entranhas sujas do poder em trama real >MostraSP

Sentamos na sala escura. O nome “Yorgos Lanthimos” nos créditos iniciais já anuncia o que vem pela frente: no mínimo, uma sátira surrealista de algum dos aspectos mais mesquinhos da humanidade. No máximo, um teatro nauseante e perturbador inspirado no absurdo de nossas vidas patéticas. O filme é “A Favorita” e saímos todos, como previsto, desconcertados.

É difícil dizer se este é um filme a se gostar: como outros Lanthimos (“O Sacrifício do Cervo Sagrado”, “O Lagosta”, “Dente Canino”), “A Favorita” deixa um gosto amargo após a sessão. Mas como esquecê-lo? Como parar de pensar naquela imagem final? E como não detestar todas as protagonistas (Emma Stone, Rachel Weisz e uma Olivia Colman que mereceu cada segundo do frisson que causou em Veneza) e, ainda assim, não  sofrer com elas?

Bem, antes de tudo é preciso explicar. O longa se baseia na história real da rainha britânica Anne (Colman), que governou entre 1707 e 1714 e foi responsável por unificar Inglaterra e Escócia como Reino Unido. Suas conquistas políticas, porém, estão longe de ser o foco e, ao invés disso, mergulhamos na intimidade de sua relação com a duquesa de Marlborough (Weisz) e com a criada Abigail Hill (Stone), uma mulher educada que perdeu sua posição, mas ganhou um instinto de sobrevivência afiado.

Como é comum em romances da corte, “A Favorita” traz um cenário marcado por contradições. Luxo e elegância ocupam o mesmo espaço que a sujeira e a grosseria, que a loucura e a doença. Violências e compulsões aparecem com tanta naturalidade quanto as afetações polidas dos nobres de caras brancas. O contraste é até visual: nos corredores onde circulam criados e segredos, reina uma escuridão tão absoluta que é impossível saber se é dia ou noite; enquanto, nos quartos e salas, há janelas e luz do sol. A rainha vive ali. Abigail, a duquesa e todos os outros peões desse xadrez real, nos corredores.

O filme faz lembrar o recente “A Criada”, de Park Chan-Wook, por seu jogo de poder e falsas aparências, mas com uma vocação muito mais satírica e grotesca do que sensual. Também se pensa em “Game of Thrones”, “A Outra”, “Barry Lyndon”, mas seu pessimismo decadente e seus diálogos irônicos carregados de crítica social não lhe deixam confundir.

Colman espanta no papel de uma monarca infantil, frágil e horrivelmente enferma que, apesar disso, reafirma (talvez a si mesma) seu poder com pequenos lampejos de opressão – não ao povo, mas às pessoas mais próximas. Weisz e Stone também brilham, um degrau abaixo da colega de elenco. A primeira, como uma mulher cheias de más intenções, porém com um sentimento verdadeiro pela rainha e companheira. A segunda, uma estrategista que manobra por todos os lados na intenção de se manter segura, mas que talvez ainda não conheça todas as nuances da vida no palácio.

“A Favorita” ganhou o Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza e Colman foi premiada como Melhor Atriz no mesmo evento. O longa abriu a 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo na última quarta-feira (17) e será exibido novamente nos dias 20 e 24 de outubro, antes de estrear nos cinemas no dia 24 de janeiro. Minha dica? Respire fundo antes de ver.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s