O Doutrinador: graphic novel brasileira chega aos cinemas pingando sangue

“Serial killer ou justiceiro?”. A frase, que aparece brevemente como a manchete de um jornal fictício no longa “O Doutrinador”, resume bem a questão que se coloca na tela (e nas ruas): afinal, vale tudo no combate à corrupção?

O filme, dirigido por Gustavo Bonafé e Fábio Mendonça, faz bem em não forçar a resposta. Inspirado na HQ homônima de Luciano Cunha, ele apresenta um protagonista que não é herói nem vilão, mas sim uma caricatura do sonho de todo brasileiro, transformada numa realidade mais incômoda do que libertadora: um vigilante que caça políticos sujos, mas coleciona cadáveres e erros pelo caminho.

Como já ensinava “Tropa de Elite” em tempos menos extremos, a violência pode até ser tentadora, mas não resolve o problema. Ao matar deputados, ministros e gente ainda mais poderosa, o Doutrinador do título só fortalece o sistema que quer derrubar, isolando-se e afundando em sua obsessão. É uma tragédia que se encena, mais do que uma jornada do herói: depois da primeira vítima, é ladeira abaixo e nunca mais acima.

Mas o filme não é só um drama político sobre um justiceiro numa terra sem justiça – é também um ótimo thriller de ação e é nesse campo que ele se sai melhor. “O Doutrinador” abraça sua origem nos quadrinhos e apresenta um visual estilizado com cores vibrantes, cenas de luta e perseguição bem coreografadas, muito (muito) sangue e um toque teatral sempre que Miguel (Kiko Pissolato) veste sua máscara. Aliás, o figurino dá um efeito bem interessante e ajuda a reforçar o clima fantástico, dando ao personagem misteriosos olhos vermelhos e um ar apocalíptico, remetendo a outras guerras e pragas.

Miguel começa com uma conquista legítima antes de se converter a fora-da-lei: policial, membro das forças especiais, ele reúne provas suficientes para prender o governador de uma cidade fictícia (mistura de São Paulo e Brasília), mas logo vê seu trabalho ir pelo ralo quando o caso é arquivado por manobra política. Paralelamente, ele sofre uma perda pessoal – muito mal explicada, devo dizer – que o enche de ódio e indignação pela situação do país. Está armado o cenário para que esse homem perca a cabeça. O que ele vai fazer a partir daí, você já sabe, é aquilo que fazem os super-heróis e os psicopatas: bater, bater e bater.

“O Doutrinador” estreia nos cinemas no dia 1º de novembro, poucos dias depois das eleições, talvez para não incitar ainda mais os ânimos sanguinários dos eleitores. Em março de 2019, o personagem também ganhará uma série de TV exibida pelo canal Space.

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