Bohemian Rhapsody: biografia do Queen joga seguro, mas emociona

Quando as primeiras notas de Another One Bites the Dust vibram no baixo de John Deacon e ressoam pelas caixas de som na sala de cinema, os fãs se arrepiam e uma acalorada discussão chega ao fim. Na tela, Freddie, Roger e May vinham discordando sobre incluir ou não um pouco de Disco no álbum seguinte, mas aquele riff perfeito trouxe suas atenções de volta ao que importava: a música. Sem gêneros, sem promessas, sem padrões, simplesmente a música do Queen.

O filme que chega aos cinemas nesta quinta (1/11) sob o nome de “Bohemian Rhapsody”, como a canção mais ambiciosa da banda britânica, resgata a história do grupo desde seu primeiro encontro nos anos 70 até sua apresentação no festival Live Aid, em 1985. Em foco, está o vocalista Freddie Mercury, interpretado por um Rami Malek (“Mr. Robot”) absolutamente possuído. Ele canta, gira e incorpora a “rainha histérica”, como ele mesmo descreve, enquanto fora dos palcos revela um lado frágil que poucas pessoas associariam com o performático artista, a menos que prestassem atenção às suas letras.

Ben Hardy, Joseph Mazzello e Gwilym Lee também não ficam para trás nas peles de Roger Taylor, John Deacon e Brian May, respectivamente. A semelhança física impressiona quase tanto quanto as personalidades, distintas e marcantes, que se combinam numa química perfeita sem que ninguém ofusque ninguém. É difícil imaginar outro ator para qualquer um desses papéis.

O filme ainda aborda, com mais ou menos ênfase, a família indiana de Freddy (que o batizou, na verdade, de Farrokh Bulsara), sua sexualidade, seu relacionamento com a noiva e amiga Mary Austin (ele a pediu em casamento antes de se descobrir gay), as intrigas com produtores e agentes, as festas escandalosas e, por fim, a doença que tirou do vocalista a vida e a voz.

Nada disso, porém, é exatamente novidade para os fãs. É claro que ninguém ficará insatisfeito com mais de duas horas da melhor música que o mundo já produziu e há algumas curiosidades ali, mas… Para uma banda que questionou tão intensamente os rótulos, é irônico que sua jornada seja contada num formato tão comum: a ascensão, a queda, o reencontro, a redenção.

É como se o roteiro procurasse pelos pontos que aproximam o grupo de todas as outras bandas de rock, e não justamente os que o separam – no caso, a música em si. Como as inspirações e experiências que os levaram a falar de “dinamites com raios laser”, “Bismillah”, “Beuzebu”, “bicicletas” ou “garotas de quadris largos que fazem o mundo do rock girar”. Acontece que Queen foi diferente de tudo o que se fazia na época e o filme nunca nos mostra por quê.

Para ser justa, há alguns momentos de criação reencenados na tela, e esses são de longe os melhores minutos do filme: vemos a ópera e a angústia inspirando Bohemian Rhapsody (ver Taylor gravando agudo em cima de agudo é uma das melhores coisas do filme), acompanhamos a chacota interna em torno de I’m In Love With My Car, o experimentalismo em Seven Seas of Rhye, a invenção das palmas em We Will Rock You… E queremos ver muito mais.

Mas o filme logo parte para a performance completa, pronta e impecável. Tudo é tão calculado para recriar com fidelidade os detalhes que o mundo já viu, que nem se percebe a chance perdida. A chance de investigar o que se escondia entre um verso e outro, por trás de toda aquela rapsódia.

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